ARTIGOS DE LAERTE VARGAS SOBRE CONTADORES DE HISTÓRIAS

Prezados Internautas,

 

Sempre me sinto lisonjeado quando os meus artigos e reflexões são inseridos aos blogs educativos ou usados em oficinas e encontros pedagógicos, mas vamos combinar o seguinte? As referências autorais são fundamentais!
Informações imprescindíveis logo abaixo do título da matéria:
Laerte Vargas
Contador de Histórias e  Facilitador de Oficinas
http://laertevargascontadorhistorias.wordpress.com
Todos os textos são protegidos pelas leis de direitos autorais e não são permitidas adaptações ou interferências nos mesmos.
 

Finais Infelizes que Ensinam

E foram felizes para sempre…

Você acha que toda história infantil deve terminar assim?
Então, como diz a propaganda, está na hora de rever seus conceitos.
Os contos de fada são considerados um pré-vestibular para a idade adulta e preparam de uma forma subjetiva, as crianças para a trajetória rumo à idade adulta que, todos nós sabemos, não implica em acertos e vitórias o tempo todo. Mas, por desinformação e imbuídos das melhores intenções, a maioria dos educadores e pais amenizam os finais dos contos de fada que não apresentam um desfecho otimista, celebrado muitas vezes com um interminável beijo de amor.
Ora, todos nós sabemos que infelizmente os casamentos não duram mais “até que a morte os separe” e que, mesmo os que se perpetuam, não são um mar de rosas o tempo todo. Por que, então, ficarmos condicionados a incutir desde cedo na cabeça dos pequenos  (e principalmente das meninas) a idéia de que a grande sorte da vida é um bom casamento? Estaremos fadando nossas filhas a viverem  uma existência sonambúlica caso não consigam se casar? Que tal pensarmos em histórias que também apresentem outras possibilidades de crescimento e evolução existencial ou então que contem sobre princesas que disseram não ao pedido do príncipe abestalhado com cabelinho repartido no meio?
Quando sentirmos dificuldade em dar voz aos contos que tratam de questões polêmicas, o melhor caminho é primeiro investigarmos a nossa formação e a criança que ainda somos internamente. Na maioria das vezes constatamos, após essa reflexão, que a dificuldade é nossa e não dos nossos alunos ou filhos. Adultos inseguros foram, na maioria das vezes, assombrados por pais igualmente temerosos. Educadores e pais que foram na infância assombrados por pais inseguros passarão “batidos” pelo Ciclo da Morte Lograda que faz parte do imaginário popular.
Sempre relato uma experiência que me fez refletir muito sobre esse tema: em uma das sessões numa enfermaria pediátrica (referência em tratamento de soropositivos), estava contando “Maria vai com as outras” da saudosa Sylvia Orthof que, em determinado trecho, traz a palavra veterinário. Por não ser comum ao universo infantil, perguntei se alguém sabia o que era um veterinário. Um deles levantou o dedo e respondeu: “é o lugar para onde a gente vai quando morre”. Desconcertado, mas sem perder o fio da história, respondi que veterinário é o doutor dos animais e o lugar ao qual ele havia se referido era cemitério.
Segui em frente, mas saí da sessão muito “mexido”. Nunca uma intervenção da platéia me ensinou tanto quanto aquela.
Até então achava que por estar contando histórias em um ambiente hospitalar (e principalmente em uma enfermaria com aquelas
características), deveria mostrar um mundo cor de rosa e repleto de leveza. Mas, na verdade, esse era o desejo do menino Laerte
que fora criado em um ambiente no qual o tema morte era escamoteado e nunca citado. No entanto, aquele ouvinte com seu aparte me mostrou que a dificuldade era só minha e que esperava encontrar em mim um interlocutor para falar disso.

A partir dali, percebi que deveria sim contar histórias alegres, mas comecei a trabalhar no meu repertório outras que tratavam de ruptura e transformação, contos em que o protagonista tinha que vencer dragões e gigantes para fazer jus ao ser feliz para sempre.
Nos trabalhos com comunidades, repetimos o mesmo engano: nossa intenção é sempre enaltecer a honestidade e o amor ao próximo para um público que sofre com o tráfico ou em instituições que cuidam de menores infratores.
Por que não começamos simplesmente divertindo?
Não é essa uma das funções fundamentais da contação de histórias? É preciso estabelecer elos com os ouvintes e eles não se entregarão se, logo de cara, você vier desfilando conceitos e dogmas. Depois que aqueles ouvintes tiverem se divertido com a sua história de abertura, você poderá narrar os contos que dão maior ênfase à moralidade e à ética. Mas, por favor, pegue leve na moral das histórias! Nunca o indicador em riste para finalizar um conto! A moral deve ser “lida” nas entrelinhas.
Sempre digo que contar histórias é “servir um banquete” e quando você se propõe a servir uma lauta refeição, não pensa em um prato só, não é mesmo? Você serve a entrada: as histórias mais leves e divertidas, facécias ou contos que enfatizem a importância do narrar. Depois, vem o prato principal: os contos mais extensos e, finalmente, a sobremesa, fábulas, lengalengas ou contos acumulativos. E aí, é só entrar pela perna do pato, sair pela perna do pinto e quem quiser que conte quatro.
Certo dia uma oficineira me disse que ouvira de um contador africano que a maior qualidade de um narrador é a brevidade. Desde então, venho refletindo sobre isso e inserindo, pouco a pouco, na minha prática. É importante que diversifiquemos os temas tratados na Hora do Conto (mesmo como preparação para o sono) para que possamos ampliar na criança as inúmeras possibilidades que a vida apresenta. Nem só de sucessos a vida é constituída; às vezes, aprendemos muito mais com os erros e uma das funções da contação de histórias é acordar a criança para a vida.
E nunca exagerar: é melhor que fique um gostinho de quero mais. E, tomando minha dica para mim mesmo, vou terminando esse artigo por aqui.
Quem quiser trazer questões para a coluna, é só me passar um e-mail, que vou adorar colocá-las na roda.


OS OLHOS SÃO A JANELA DA ALMA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

Do que dispõe o contador?

Uma sala (ou pátio, ou jardim, ou refeitório) e um grupo de ouvintes convidado a viajar por países e reinos infundados, conhecer outras culturas, ter notícias de outros povos e compartilhar momentos de fantasia e conhecimento.

É preciso estar atento para a força que este momento tem. Normalmente, partimos da idéia de que temos que começar imediatamente a contar para que a cumplicidade se estabeleça: o primeiro elo se dá no silêncio desse encontro, o olhar convidando para o contar.

Sempre que possível, chegar antes à sala ou ambiente onde vai se dar a “contação” estabelece vínculos mais palpáveis para o contador.

Você vai poder sentir as reais dimensões do espaço, perceber com quais dificuldades precisa lidar (se o ambiente for aberto, escolha o recanto que mais se preste para um encontro íntimo entre contador e ouvintes).

Em salas fechadas, aproveite o tempo anterior para sentir a acústica, a emissão de sua voz (nem tão baixa, nem tão alta: convidativa), aquecê-la com mantras ou vogais e resolver como vai receber os convidados para o banquete.

Se existir palco ou tablado, perceba se a altura do mesmo vai distanciar você do seu público; muitas vezes escolher ficar embaixo, próximo às poltronas pode ser mais prazeroso do que ficar num palco com altura que o torne um elemento distante da platéia.

E atenção: atrás de você, contador, nada que interfira na viagem.

Perceba se há circulação ou cenários no palco que interfiram ou que não somem ao fio condutor da sessão.

Se possível, fundo neutro e roupa também. Normalmente, se opta por uma camiseta que tenha a logo do grupo com o qual trabalha ou então sem nada, numa cor básica.

Quando vou ouvir um contador, fico emocionado quando as portas se abrem permitindo o acesso ao local onde vai se dar a “contação” e o encontro à minha espera. É como se visitasse alguém e percebesse que o anfitrião reservou e esperou com carinho por aquele momento.

Saboreie o preâmbulo e não fique ansioso para começar a contar!

Olhe para os seus convidados, respire profundamente, sinta os seus pés bem plantados no chão e, em hipótese nenhuma, tenha pressa.

Fiel amiga do contador de histórias: uma garrafa ou copo de água na temperatura adequada. A boca está salivando convenientemente para promover uma fala gostosa de se ouvir? Lembre-se que o melhor lubrificante para voz é produzido pelo nosso próprio corpo: a saliva. Uma boca molhada é pré-requisito para uma voz clara e colorida.

Com o tempo, você vai perceber que o próprio grupo sinaliza, de uma forma misteriosa e silenciosa, o momento que você deve começar a contar. Nesse entremeio, nosso grande e único anfitrião: o olhar.

Vai perceber também, na sua prática, que cada grupo tem sua própria pulsação e é nela que você vai “embarcar” garantindo o sucesso da viagem.

Respire lenta e profundamente até sentir que a sua respiração e a do público se fundiram, tornando-se uma só.

Então, comece: se tiver “era uma vez” melhor ainda: essas três palavras mágicas são como um tapete voador a serviço da fantasia.

Os contos populares têm características iniciais muito próprias que são imprescindíveis para o bom entendimento da trama. Começam situando o ouvinte no tempo:

Era uma vez…

Ou
Existiu lá no oriente…

Ou ainda
Há muito tempo atrás…

Em seguida, dão conta dos personagens envolvidos no enredo:

Uma viúva que tinha duas filhas…

Ou
Um moleiro que tinha uma filha linda…

E tecem os primeiros fios do enredo:

A mãe tinha verdadeira adoração pela filha mais velha, mas não gostava nem um pouco da filha caçula…

Ou

Certo dia, ao se encontrar com o rei e para se dar importância comentou que sua filha sabia transformar palha em ouro…

Três momentos que passam num piscar de olhos, mas que são imprescindíveis para o bom entendimento da história e seus desdobramentos.

Desenvolva esse preâmbulo percebendo como ele está ecoando na platéia: momento também para identificar aquele ouvinte inquieto que deverá requerer mais atenção que os demais. Torná-lo foco das atenções, direcionar a história para ele inicialmente pode fazê-lo ficar mais receptível e cúmplice.

E para essa parceria com que contamos? Nosso amigo inseparável: o olhar. É ele que convida, aproxima, preenche os silêncios e diferencia a “contação” de tantas outras linguagens.


CONTAR HISTÓRIAS: Será que eu levo jeito pra isso?

Seminário Educação pelo SINPRO-RJ

 

Era uma vez…

Três palavras que abrem as comportas da imaginação, que nos convidam a visitar reinos inimagináveis e nos transportam para outras épocas.
A partir do jogo do faz-de-conta, vamos conduzindo a criança no aprendizado da vida e, sem ter cara de aula, ensinamos ética, cultura geral e tantas outras lições apreendidas pela via do afeto!
Mas… será que eu tenho jeito pra isso?

Claro que sim! Todos nós temos um contador de histórias clamando por botar a boca no trombone. É preciso, no entanto, descobrir o seu estilo e o seu jeito muito próprio, inimitável, de contar histórias.
A maioria dos educadores pensa que é preciso uma parafernália: bonecos, panos, sonoplastia e se dispor a extrapolar limites além da sua personalidade.
Calma! Não é nada disso! Caras e bocas podem fazer a criança pensar: “mas que adulto idiota!”.
Seja simples no contar, sofistique na escolha das histórias.
Vamos falar dessa tal simplicidade? Pois bem, contar histórias é, acima de tudo, compartilhar.
Crie para a Hora do Conto uma organização diferente das carteiras. Se for possível encostá-las e espalhar tapetes pelo chão, melhor ainda. À criança deve ser
dada a possibilidade de ouvir deitada, sentada, encostada na parede, “futucando” o nariz, da forma que lhe der na telha!
Se for impossível essa “desorganização” ou criar um canto para a contação de histórias na sala, organize as carteiras num semi-círculo – as histórias eram contadas assim nos tempos idos. A roda tem um efeito inclusivo mágico nesse momento.
Mas simplicidade quer dizer contar a história de qualquer jeito? Na-na-ni-na-não!
É claro que para dar voz a uma história, você deverá ter lido várias vezes o conto, grifado com cores diferentes palavras importantes na história, brincado com as  imagens que elas suscitam e feito sua viagem muito particular pelo enredo que ela tece.
Nada de treinar em frente ao espelho! Isso já era e, além do mais, somos, às vezes, os piores juízes de nós mesmos!
Grave a história e deite-se numa atitude de relaxamento: nuca alongada, pernas dobradas e pés apoiados no chão, espaço entre as pernas correspondente à largura da sua bacia. Respire pausadamente, prestando atenção ao seu ritmo respiratório: expiração, pausa, inspiração, pausa, expiração. Dê um tempo para o seu corpo ir se soltando, a mente silenciando, nada de “musiquinha” de relaxamento; a idéia não é fazer você dormir e, sim, serenar a mente para receber o história.
Então, ouça a história. Procure visualizar os personagens, o local onde a história acontece e não seja tão crítico nesse momento, use a gravação apenas como condutora da sua viagem. Perceba se existem lacunas na narrativa – contação não é cinema, com corte e edição. Se a princesa está na floresta e deseja chegar ao castelo, ela terá que sair da mata, pegar a estrada, entrar no reino, cruzar a praça  principal para, finalmente, ver o castelo majestoso lááááááááááááá no alto da colina. Não pule etapas.
E sinta a pulsação da história: expansão, pausa, contração, pausa, expansão…
E aí? Foi bom pra você?
Conseguiu ver a “cara” dos personagens? Sentiu um frio na espinha quando a assombração perseguiu a menina pelos corredores do castelo?
Talvez aqui e ali tenha percebido que algumas palavras se repetem em demasia e seja melhor enriquecer o vocabulário das crianças com palavras novas; talvez o desenlace esteja acontecendo de um jeito súbito demais.
Ótimo! Então, mãos à obra!
Não conseguiremos “engravidar as palavras de sentido” se não formos viajantes do conto.
E isso me faz lembrar um pré-requisito fundamental para um contador de histórias: uma boa dose de delírio.
Pessoas muito racionais e práticas talvez venham a encontrar maior dificuldade para dar voz a uma história. Afinal, como acreditar que aquele sapo era um leão de pedra que vivera encantado durante anos na caverna do Elfo Azul e agora se transforma em príncipe frente aos olhos da Princesa Anã?
Contar histórias é imaginar o inimaginável, o conto só ganha corpo e existe quando é materializado na imaginação do ouvinte e do contador. Aí, sim, ele estará cumprindo a sua missão essencial.
Ponho uma “musiquinha” aqui nesse momento mais triste? Tocar um instrumento pode até ser, mas lembre-se sempre que a leitura que você faz do conto pode não ser a leitura que a criança faz. O ouvinte pode estar dando graças a Deus da bruxa ter acabado de
vez com aquele príncipe idiota. Não imponha sua leitura, dê espaço para que a criança faça a dela. Esse é um dos nossos intuitos ao promover a Hora do Conto, lembra? Formar leitores múltiplos.
E nada de finais moralizantes, viu? A moral deve ser subliminar e o tempo para a criança digerir o conto deve ser preservado sempre.
Também nada de atividades imediatamente após a contação de histórias. A Hora do Conto, por si só, já é uma atividade repleta de conteúdos.
Se quiser desenvolver tarefas a partir das histórias contadas, deixe para o dia seguinte, permita que a criança vá pra casa “jiboiando” o conto e possa comentar após um tempo.
Quanto ao repertório… Bem, isso já é uma outra conversa. Todos nós sabemos que dar conta da vida profissional e pessoal já são tarefas suficientes para exaurir qualquer um, principalmente as mulheres.
Vá trabalhando seu repertório devagar, comece com as histórias contadas pelo povo à sua volta. A criança adora ouvir contos que aconteceram bem pertinho, naquela casa abandonada no final da rua e que todo mundo evita passar em noite de lua cheia. O
imaginário popular está pipocando com lendas desse tipo que são, além de tudo, um excelente antídoto para os temores infantis. Alguns educadores e pais acham que as histórias de almas penadas podem tornar a criança insegura e temerosa, mas o resultado é exatamente o oposto! Os causos de assombração levam as crianças a vencerem seus medos internos com mais facilidade, pois tudo se dá no plano do era uma vez.
Uma estratégia simples e sedutora para diversificar o repertório contado em sala de aula é criar uma rede entre os educadores que atuam na escola: cada um trabalha duas a três histórias por semestre e depois se revezam visitando as turmas dos colegas.
E sempre contar histórias populares, claro! Não é à toa que esse material oriundo da literatura oral se preserva até hoje. Ele fala, numa linguagem metafórica, dos percalços e embates que a criança viverá na idade adulta.
Bocas à obra? Mas não se esqueçam de me contar os resultados. Como bom contador de histórias, adoro ouvi-las também!


Histórias infantis e faixas etárias

Uma das perguntas mais recorrentes nas oficinas de contação é “Quais as histórias indicadas para cada faixa etária?” . Fico me perguntando se nos tempos idos os contadores de causos que animavam os serões de histórias nas fazendas ou nos povoados tinham essa preocupação e elucubravam a respeito.
Claro que não! A prática não seguia nenhum paradigma ou estabelecia limites para o repertório contado. Com isso, a criança ouvia, ao lado de adultos, histórias de terror, de mula sem cabeça e uma das primeiras intenções da arte de contar histórias era alcançada: a de agregar. Mas os tempos mudaram e, quando digo isso, não quero dizer que uma época seja melhor ou que esteja mais certa ou errada, não. O olhar era outro.
No Módulo I da Oficina de Contadores de Histórias, a investigação das raízes da literatura infantil começa a partir do século XVII e, mais especificamente, a partir da compilação que Charles Perrault fez das histórias tradicionais. Histórias que culminaram na publicação de Contos da Mamãe Gansa (personagem dos velhos contos populares franceses que contava historietas para seus filhotes) que incluía, entre outros, Chapeuzinho Vermelho, As Fadas e a Bela Adormecida no Bosque. No entanto, ainda não havia a intenção de ser produzida uma literatura específica para as crianças, mesmo porque elas não eram entendidas como crianças.
No Brasil, surgiram, no final do século XIX, os Contos da Carochinha, que se desdobraram em variantes extremamente influenciadas pelas amas africanas que as contavam. Por ser um material que circulava pelas classes menos favorecidas, tinha uma linguagem simples, que a todos encantava e não era tão importante saber se uma criança de cinco anos estava compartilhando a mesma história com seu irmão de doze. Contos que, na maioria das vezes, falavam da busca do autoconhecimento, ritos de passagem que pegavam carona no fantástico e que ajudaram tantas identidades a se formarem.
Hoje em dia já não vamos tanto pela intuição, infelizmente. Precisamos ter certeza absoluta e errar muito pouco, principalmente com nossos filhos. Afinal, a vida anda corrida demais e já não temos tempo sobrando para arriscarmos ou experimentarmos e, ao final, não sermos pedagogicamente corretos.
Acho que essa questão de faixa etária é mais mercadológica do que qualquer outra coisa. É claro que o bom senso conta muito. Não vamos contar os Contos da Morte Lograda para uma criança de 4 anos, assim como não vamos contar Os Sete Cabritinhos para um pré-adolescente.
É preciso dedicar tempo e não buscar ter tudo pronto. Contar histórias é uma arte que envolve pesquisa, atenção, discernimento, percepção e proximidade. Não dá para o livro estar lá na estante e você no outro extremo buscando receitas prontas para facilitar a sua vida.
São poucos os pais que compartilham realmente do prazer de ouvir histórias ao lado dos filhos. Nós, contadores, sabemos muito bem disso por conta da nossa experiência em livrarias e centro culturais: os pais abandonam os filhos no canto dos contos e só reaparecem no final. Em casa é que começa a  tarefa que delegamos à escola: a de fazer de nossos filhos leitores ávidos e ela começa bem cedo com as parlendas e as cantigas de roda. É o primeiro caminho para tornar sedutor o exercício da leitura  e fazer com que a criança peça mais. Depois, vamos inserindo as fábulas, as narrativas curtas que envolvem brinquedos e alimentos e, aí sim, começamos a contar as histórias mais elaboradas: os contos de fada, de encantamento. E, então, quando nos damos conta, temos à nossa frente um devorador de livros. E ele, sem dúvida, vai se tornar um adulto muito mais interessante e sensível.

Boa sorte!

29 Comentários

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29 Respostas para “ARTIGOS DE LAERTE VARGAS SOBRE CONTADORES DE HISTÓRIAS

  1. kELMA

    Como é poderoso saber que existem pessoas com brilho intenso a refletir tanta sabedoria e paixão pela leitura e contação de historias.Obrigada por dividir comigo e com todos os seus encantos e maravilhosas palavras e indicações..Grande beijo e muitos sonhos…

    • Só tenho a agradecer às histórias, Kelma.Elas me ajudaram (e vêm me ajudando) a entender minha trajetória e meu lugar no mundo.
      E agradecer também às suas palavras tão doces.

  2. celina

    Gostei muito do seu texto. Sou contadora de histórias, mas muito simples. Sempre busco referências para melhorar meu repertório e as técnicas. É bom saber que tem pessoas possuidoras das palavras mágicas e que compartilha seus saberes e experiências. Grande abraço.Efigênia Alves – Jaguaribe-Ce

    • Que preserve essa simplicidade sempre!
      Cuidado ao querer tornar seu ofício de contador de histórias um ofício puramente técnico.
      Não se esqueça de manter aquecido o coração!

  3. António

    Chamo-me António Quino e sou angolano. Tenho uma grande paixao por histórias. Estou a apreciar o texto e sinceramente me sinto feliz pela forma simples e directa como transmite a sua experiencia aos homologos. Parabens

  4. ♫☼→€ÐŽДŋģ€ŁД♫☼→

    Gostei muito das informaçoes aquii passadas.Está me ajudando muito, pois fasso curso de MAgistério e preciso muito desses tipos de informaçoes. Sem falra tambem que fasso teatro e adoro Histórias o que ajuda muito tambem…Muito obrigada !!!Beijos!

  5. Laerte, sou professora de metodologias do ensino no Curso de formação de Docentes, no Instituto Estadual de Educação de Maringá, Estado doParaná.
    Que riqueza são os conteúdos que você explora no campo da leitura.
    Sucesso e que continue contribuindo para a utilização da leitura de forma educativa e prazerosa em nossas escolas.

  6. vanuza souza

    adorei… estou começando desenvolver um projeto de contação de história.
    um abraço

    • Que bom, Vanuza.
      Cada vez que uma pessoa vem aqui e relata que meus artigos ecoaram, tenho esperanças de que a contação de histórias sobreviverá da forma como deve: simples e via coração.
      Abraços calorosos,

  7. Lívia Brasil Viana Matta

    Oi Laerte,
    Gostei muito dos seus textos!! Estou começando um projeto de contação de histórias e suas idéias de simplicidade e amor pelo ofício me encantam.
    Suas palavras me motivaram e me deixaram menos insegura. Muito obrigada e Parabéns!!!

    • Que seja assim, Lívia!
      Deixe num primeiro momento o coração conduzir você!!! Não é assim em qualquer relação?!
      Depois, sim, pare pra pensar. E quando isso acontecer, tenha cuidado em não perder o contato com seus ouvintes.
      Não transforme a contação de histórias em alguma outra coisa muito distante do seu público e que pareça que só você pode fazer.
      A espetacularização da contação de histórias tem transformado essa arte de aproximação em um show de performances beeemmm distante do seu intuito primeiro: o de estabelecer vínculos.
      Que São Cascudo a abençoe.
      Me dê notícias.

  8. Jacira

    Olá, li seus artigos e fiquei muito eentusiasmada em contar histórias na minha escola. Sou formada em Letras e neste ano resolvi pegar literatura na minha escola, porém estou passando algumas dificuldades, pois meus alunos não ajudam muito e alguns atrapalham, principalmente a 4ª série, hoje 5º ano do ensino fundamental I. Outro problema que enfrento é o tempo que é longo, 2 horas de aula e devo fazer atividades referente a história e muitas vezes não sei que atividades farei, visto que, não pretendo destruir o momento da contação. você poderia me ajudar com esse conflito? Obrigada.

    • Prezada Jacira,
      Ao ler sua mensagem, veio uma imagem: uma velha ama, cercada de crianças, um forno a lenha crepitante numa cozinha de uma velha fazenda e ela anunciando:
      “_ Vô contá uma história prá suncês e dispôs nós vamo conversá a respeito!”
      A cena é inusitada, não é?
      Claro que tenho a clareza que a contação de histórias como ferramenta de ensino tem outras intenções, mas não precisa necessariamente estar sempre atrelada a uma atividade posterior.
      A Hora do Conto por si só já tem elementos suficientes para se justificar. O que acontece, na maioria das vezes, é que muitos colégios exigem que o educador faça uma atividade depois de contar uma história.
      Aí, das duas, uma: ou os educadores caem no lugar-comum de ser um desenho e dramatização ou tentam a todo custo extirpar uma atividade de contos que os ouvintes precisarão antes jiboiar.
      Alguns contos trazem um caudal de informações que não são digeridos de uma vez só, será necessário ir pra casa, dar um tempo e, racionalmente, talvez eles nunca entenderão o universo arquetípico que a história suscita.
      Nós podemos apenas sinalizar aqui e ali alguns pontos que servirão como alicerces para a construção do indivíduo e já está de bom tamanho.
      “É através de uma história que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra ótica… É ficar sabendo história, geografia, filosofia, direito, política, sociologia, antropologia, etc…, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula… porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer, e passa a ser didática, que é um outro departamento (não tão preocupado em abrir todas as comportas da compreensão do mundo)…” Fanny Abramovich
      Quando uma história convida à atividade posterior, ela salta aos olhos: trava-línguas, adivinhações, origamis, ditos populares, enigmas… Enfim, são tantos os contos que propiciam uma boa atividade!
      E existem outros que servirão para sedimentar o indivíduo. Aí não adianta tentar transformar em dramatização ou desenho, pois não se tornará nada sedutor e não somará para a internalização do mesmo.
      Outro ponto: impossível ter repertório para suprir duas horas de aula. Tudo deve ter sua medida certa. Melhor ficar um gostinho de quero mais do que avançar além da conta e cair na dispersão.
      Os ouvintes precisam de tempo para assimilarem as histórias, principalmente os contos de encantamento que abrem as comportas da fantasia e do fantástico. Melhor ainda se você estabelecesse o dia pra Hora do Conto e eles esperassem com avidez por esse dia.
      E, finalmente, acertar na escolha das histórias, né?! Um bom repertório é fundamental para seduzir seus ouvintes.
      Talvez esteja faltando o tempo da sedução. Sua faixa etária é de 9, 10 anos… não é isso?
      Você já está apaixonada pelos contos, mas eles ainda não! Comece com doses homeopáticas e espere a “medicação” surtir efeito.
      É um trabalho de formiguinha, amiga, todos nós sabemos… Luz procê!
      Me escreva sempre dando notícias. E, por favor, não deixe seu entusiasmo esmorecer.
      Precisamos dele!!!
      Abraços calorosos,

  9. MARIZE

    Amei tudo do seu blog!
    Você é maravilhoso!!!!!!
    Nunca esqueci a história da zabelinha
    Te desejo muito sucesso em toda sua caminhada
    Bj no core

  10. Carla Elisa

    Estou professora na sala de leitura da E. M. Prof. Virgilio Machado em São João de Meriti/RJ e gostaria de participar de cursos e oficinas ministradas por você. Amo seu entusiasmo e seu interesse para que as contações de histórias não perca o seu real sentido: incentivar o hábito da leitura. Abraços. Carla Elisa

  11. Maria de LourdesG. Pedrosa

    Oi Laerte! Tô encantada co cê!
    Parabéns pela sua pág, pelos artigos ditos de forma tão clara e simples que nos faz acreditar que é possível ser um contador encantador.. Obrigada e parabéns pela sua escolha em viver nesse universo maravilhoso que encanta e educa. Agradeço a Deus por permitir e inspirar vc a descobrir e preparar outros contadores de histórias.
    Beijs!
    ( Faço curso de Coaching no 2° e 3° sábado de cada mês. Caso vc forme turmas durante a semana ou no 1° e 4° sábado (e domingos) envie-me um e-mail.

    Maria.

  12. Dilemar cunha dos Santos Costa

    Olá Laerte.
    Há mais de dois anos, venho tentado encontrar algo sobre contadores de história. Qual não foi a minha surpresa quando encontrei seu blog. Que maravilha, fiquei muito feliz, pois já estava meio desanimada, pois não conseguia encontrar nada que do que estava procurando.Sou professora, e amo contar histórias, e insentivar meus alunos a ler. Meu grande sonho é tornar-me uma contadora de história,encontrei no que você escreveu o que a tanto tempo procurava. Hoje mim enchi de ánimo novo. OBRIGADA. Deus te abençoe.
    Dilemar, Pilar- Al.

  13. DAMIANA GOMES

    OI SOU CONTADORA DE HISTORIA E ADOREI ENCONTRAR SEU BLOG, A TRÊS ANOS FAÇO ESSE TRABALHO NUMA ESCOLA E GOSTO MUITO, QUANDO INICIEI NÃO SABIA COMO FAZER, O QUE CONTAR, COMO CONTAR, COMO PRENDER A ATENÇÃO DE CRIANÇAS DA REDE PUBLICA, MENINOS E MENINAS FAMINTOS DE COMIDA E CARINHO E PARA CONTRASTE E MINHA FORMAÇÃO FUI CONTAR TAMBÉM EM UMA ESCOLA PARTICULAR UM UNIVERSO DIFERENTE MAS QUE TAMBÉM NECESSITAVA DE ALGUÉM QUE OS LEVASSEM AO MUNDO DA IMAGINAÇÃO, NO COMEÇO FOI DIFÍCIL HOJE A CONTAÇÃO É TRANQUILA E ELES APRENDERAM A GOSTAR DE OUVIR HISTORIAS, ADORO A CONTAÇÃO, ELES É QUE ME FORMAM CADA DIA UM POUCO MAIS. ESPERO PODER APRENDER TAMBÉM COM VOCÊ. UM ABRAÇO.

    • Obrigado por seu relato, Damiana.
      É mesmo assim. Quanto mais a gente se sentir à vontade com o nosso público e puder usufruir de intimidade, melhor.
      Simplicidade no ato de contar e sofisiticação na pesquisa, dois pilares fundamentais para sustentação do seu trabalho.
      São Cascudo abençoe e Santa Sherazade ilumine.

  14. penso que [eles viveram felizes para sempre] deve continuar na historia levando as crianças a uma reflexao critica a ter sua propria filosofia de vida nao devemos responder por elas ,mas mediar a construçao do conhecimento

    • Prezada Betânia, cada um dos contos sugere um universo de experimentação que, claro, racionalmente a criança não entende, mas que é fundamental que fique claro para nós que trabalhamos com esse material.
      Ou trata da questão de não ser o filho preferido, ou o abandonado, ou o caçula que será o redentor da família falida, a filha que sofre abuso do pai; enfim, cada história abre um leque de reflexões e vivências nas quais a criança poderá sofrer ou não. Mas das quais sempre escapará, pois tudo se dá no plano do ERA UMA VEZ.
      O eterno “ser feliz para sempre” é uma invenção que não existe em muitos contos, basta se aprofundar um pouco na obra dos Irmãos Grimm e dos mais expressivos compiladores para se surpreender com essa descoberta.
      Porque isso? Para impor sofrimento às crianças? Nada disso! Para que as crianças saibam que nem tudo termina em balas e algodão doce na vida!
      A saudosa Slvia Orthoff dizia que “ser feliz para sempre é muito chato”! Qual vida não tem impasses? Qual vida não sofre percalços?
      É preciso coragem da nossa parte para enfrentar o desafio de vencer a criança, às vezes amedrontada, que existe dentro da gente e ler os contos com finais infelizes.
      É gostoso e não dói.
      Abraços calorosos,

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