BATE-PAPOS COMIGO

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Sexta-feira, 16 de julho

Contando em Hospitais

Contando em Hospitais

Aprende-se muito ouvindo – e contando – histórias
Com insistência e técnica, você pode se tornar um bom contador de histórias para seus alunos

Tatiana Achcar

Sentados em roda, acomodados confortavelmente no chão, um lençol estendido ao fundo, crianças e adultos são convidados por um contador de histórias a sonhar. Começa a narração e, como se baixasse uma tela de cinema bem à frente, todos projetam a aventura do herói, o encanto da fada, as peripécias do menino sapeca levado da breca, a festa dos bichos da floresta, o ritual de nascimento do indiozinho, os seres terríveis das histórias de medo. Ouvintes e contador se transformam nos personagens, enfrentando dificuldades, buscando respostas e superando situações.

Contar histórias – ou ouvir uma delas bem contada – está entre as coisas mais gostosas da vida. E como se aprende com elas! “Os contos enriquecem nosso interior, desenvolvem a individualidade e, ao mesmo tempo, nos tornam mais flexíveis para resolver problemas e aceitar diferenças”, explica Regina Machado, pesquisadora de narrativas tradicionais da USP e fundadora do grupo de contadores de história Pé da Palavra.

Se você se dispõe a contar histórias para sua turma, assume um importante papel nesse embalo que transforma alunos e a si mesmo. Há uma lacuna comum entre as crianças, que cada vez menos encontram em seus lares, entre pais ou amigos, a figura de contadores. Quando chegam à escola, tampouco. Ao preencher esse espaço você ainda vale-se de contar histórias para formar pessoas melhores, mais concentradas, criativas e ágeis para encontrar soluções na vida prática.

“O interpretante-leitor é um ilusionista que tira da cartola mágica que é a sua boca os mais insuspeitos objetos-palavras, em um desenrolar de surpresas que parece infinito”, descreveu a psicolingüista argentina Emilia Ferreiro no livro Piaget-Vygotsky – Novas Contribuições para o Debate (Editora Ática, 176 págs, 29 reais).

Esta aí a chance de preparar-se para a inesquecível aventura de se tornar um contador de histórias e envolver a sua turma em imaginação, mistério e sabedoria.

É difícil? Sim, mas não impossível
Quase todo mundo já ouviu, alguma vez na vida, uma história tão bem contada que, além de ter feito “viajar” numa experiência maravilhosa e única, despertou a vontade de ser também um bom narrador. Mas muitos devem ter engavetado a idéia por acreditar que para ser um contador é preciso ter dom, um privilégio que nasce com poucos.

Para Regina Machado, ninguém pode ensinar uma pessoa a ser uma boa contadora. Porém, qualquer pessoa pode aprender a contar bem uma história. “O dom se desenvolve, na verdade, em um exercício constante, uma busca interna e contínua por ver o mundo de outras formas”, explica a escritora no livro Acordais- Fundamentos Teórico-Poético da Arte de Contar Histórias.

O segredo é experimentar e ter a intenção de fazer da história uma verdade, ou seja, colocar-se por inteiro dentro dela. “Se você tem claro para si o que pretende ao contar uma história, essa intenção transparece durante a ação narrativa”, explica Regina.

O ritmo a dar ao conto também depende da sua disposição individual. “Deixe-se levar pela cadência, pelo fluxo da narrativa, modulando a voz, o gesto, o olhar de acordo com os climas da história”, descreve Regina. O tom monótono da leitura ou da fala não permite que as pessoas “vejam” a história. Para apropriar-se de mais recursos ao narrar, sugere a autora, observe mais as pessoas no seu dia-a-dia, os tipos humanos, a natureza, os fatos e objetos. Repare em tudo, mas procure diferentes pontos de vista, veja com a imaginação e com a intuição. Depois, transporte essas percepções para a história.

Ao contar, procure se relacionar com a platéia. Seu olhar, seus gestos e seu movimento corporal precisam “tocar” o olhar, as mãos e o corpo dos ouvintes. Sinta as reações, troque impressões. Com o tempo, você se sentirá mais seguro para improvisar, deixando as palavras e os recursos externos surgirem ao sabor do momento.

Prepare-se
Com dez anos de experiência, o ator e contador de histórias Laerte Vargas, do Rio de Janeiro, afirma que para apresentar um novo conto é importante apropriar-se da espinha dorsal da narrativa. Isso se consegue ao ler o texto do início ao fim, várias vezes, sem se preocupar em decorar as partes da história. “Assim, quando você for narrá-la, mesmo que se perca um pouco nesse ou naquele trecho, saberá onde chegar”. Laerte ressalva que a palavra decorar tem origem na expressão ‘de coração’. Portanto, faça da história um sangue que corra na veia.

Para ensaiar, leia em voz alta até impregnar-se das palavras. Grave em uma fita e ouça com os olhos fechados procurando construir imagens e sentir os respiros da história; reconte-a com palavras diferentes para enriquecer o vocabulário; conte antes para pessoas próximas.

Domada a história, é possível pensar em uma ambientação. Objetos, panos, música, luz, roupa são pesquisados de acordo com cada narrativa. Mas esses recursos não podem desviar a atenção da platéia. “Experimente, algumas vezes, contar sem qualquer aparato”, aconselha Regina Machado. Espaços neutros fazem com que os ouvintes projetem as imagens. Os ambientes naturais, como um jardim ou a beira de um lago, são bem vindos, desde que acolham a narrativa.

Repertório
O mais importante na hora de escolher um conto é gostar dele. Caso contrário, você não conseguirá “entrar” na história nem ela em você. Vale lembrar que um contador é, antes de tudo, um leitor apaixonado que pode, graças à experiência com as letras, distinguir contos de qualidade das narrativas pobres.

Quando for escolher o repertório nas livrarias, sebos ou bibliotecas, lembre-se: valem todos os tipos de narrativas. “É um mito achar que a criança só gosta de conto curto e fácil. O que seria das Mil e Uma Noites?“, indaga Eliane Mingues, consultora pedagógica do Cedac (Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitrária).

Outro equívoco comum, apontado por Regina, é considerar que somente crianças pequenas gostam de ouvir histórias. “Vale para todas as idades”, afirma.

Na escolha das histórias, como sugere Eliane, prefira os clássicos e fuja das versões com linguagem adaptada. Na opinião de Regina Machado, os contos tradicionais, oriundos da cultura oral, são mais puros, verdadeiras histórias de ensinamento sobre afetividade.

Mais uma dica, os contos de outros países, ao mesmo tempo em que preservam e difundem o conhecimento das culturas tradicionais, mostram que existem formas distintas de ver o mundo, o que é fundamental na formação ética dos alunos.

Finalmente, não caia na tentação de escolher fábulas para usá-las à serviço da moral. Resultado: a hora do conto perde toda sua riqueza. “A gente não tem que ensinar nada, é a história que ensina”, diz Regina Machado.

É proibido proibir
Tornar o momento do conto um pretexto para outra atividade empobrece a aula. “A criança fica condicionada e ouve a história pensando no que terá de fazer depois, seja um desenho, um texto ou uma dramatização”, explica Laerte Vargas.

Cuidado, também, para não burocratizar o momento, criando listas de questões como “Vamos encontrar o personagem tal” ou “Qual o moral da história”. Elas levam a uma interpretação única. E evite, ainda, propor à turma que reconte a história depois de ouvi-la. “É preciso sentir e digerir os sentimentos provocados. Dê um tempo, deixe a atividade para o dia seguinte”, conta Laerte. Ou, se preferir, encare esse momento como o papo com os amigos depois de uma sessão de cinema, onde todos conversam sobre suas impressões e emoções do filme sem se prender a regras. No começo da história, não é necessário impor o silêncio. A atenção vem aos poucos, com o convite ao mistério, o desenrolar da trama e da arte da narração.

 

 

Laerte Vargas contando na Livraria da Travessa

Entrevista com Laerte Vargas – Contador de Histórias (parte 1)

http://picpedagogia.blogspot.com/2009/04/entrevista-com-o-contador-laerte-vargas.html

Trazemos o início da entrevista realizada pelo grupo do PIC com o contador de histórias, facilitador de Oficinas e Pesquisador de Literatura Oral, Laerte Vargas. Equipe PIC: Laerte, tomamos conhecimento do seu trabalho através da professora Adriana Hoffmann, que realizou curso ministrado por você na Casa de Leitura sobre contação de história, há alguns anos. Em grupo, visitamos o seu blog e cada um pensou numa questão que gostaria de lhe apresentar para conhecer um pouco mais sobre a sua trajetória e o seu trabalho. Há quanto tempo você trabalha com contação de histórias? Como começou seu “namoro” com as histórias?

Em 1994 eu ouvi o grupo Morandubetá contando histórias no Centro Cultural Banco do Brasil e nunca mais parei.

Equipe do PIC: Navegamos pela sua página (Blog do Gandavo) na internet e gostamos muito. Temos muito interesse pela prática de contar histórias e nosso grupo já esteve, inclusive, realizando oficinas com histórias para professores em eventos da área educativa. Você acha que o professor, para desenvolver essa prática em sala de aula, tem que ser um apaixonado pelas histórias, sejam elas contadas através de qualquer linguagem? Será que as escolas não deveriam constituir grupos de professores que se identificassem com essa prática para que fossem desenvolvidas, junto aos alunos e aos próprios professores, um trabalho de contação de histórias?

LAERTE: O prazer pela leitura e pela contação de histórias não é algo que possa ser impingido a alguém. Também não é possível forjar brilho no olho ao dar voz a um conto. Esse “reluzir” vem da relação que o contador estabelece com a história escolhida.

Já trabalhei com muitos grupos de educadores que não sabiam que gostavam de ouvir histórias, pois na sua formação não havia existido a figura do contador. Num primeiro momento, é mais importante contar histórias do que formar contadores. À medida que a plateia para as sessões de histórias for aumentando, o desejo por contá-las também crescerá. Muitas vezes, as instituições, no afã de fomentar o trabalho com a leitura , vão promovendo seminários, maratonas, mas não ficam atentas à possibilidade de descobrir dentro dos grupos pessoas realmente dotadas do desejo para levar adiante o trabalho de contador de histórias. Isso faz com que as oficinas de contadores de histórias se tornem mais um curso que “um dia eu fiz numa maratona de leitura” e o investimento nos profissionais realmente imbuídos de se aprofundar na linguagem não acontece. A carga horária mínima para a formação inicial de um contador de histórias é de 20 horas e nesses evento s eles vivenciam, no máximo, workshops de 4 horas.O trabalho do contador implica em muita pesquisa, aquisição de livros, tempo para trabalhar as histórias e formar um repertório.

As escolas querem que o professor se desdobre, abrindo mão do tempo escasso que tem para ficar com os filhos para trabalhar histórias. Se não tiver remuneração, o professor não vai abrir mão da prestação da televisão de tela plana, por exemplo, para comprar livros.

Quanto às outras linguagens, acho válido se o professor já tiver experiência no assunto e bom gosto. Do contrário, o tiro pode sair pela culatra.

Contação teatralizada e teatro contado pra mim é “conversa pra boi dormir”.

Já vi apresentações que fizeram os adolescentes saírem correndo para não pagarem mico e as crianças rirem do patético a que os educadores se expunham.

Bom senso e simplicidade na hora de contar são fundamentais.

Equipe PIC: Na sua opinião, qual o papel da contação de histórias na formação do leitor?LAERTE: A contação de histórias é o livro vivo que também pode ser encontrado na prateleira da sala de leitura. Esse livro pulsante, que tem olhos, gesticula e interage com a criança, é a primeira grande ponte para o livro impresso.

Laerte Vargas – mais sobre contação de histórias (parte 2)

Trazemos neste momento a continuidade da entrevista realizada pelo grupo do PIC com o contador de histórias, facilitador de Oficinas e Pesquisador de Literatura Oral, Laerte Vargas. Aproveitem!

Equipe PIC: Algumas integrantes do PIC fizeram oficina com a Bia Bedran e ela deu dicas aos professores de como contar histórias para os alunos. Que aspectos você acha relevantes para nós, professores, na hora de contar histórias para os alunos?

LAERTE: Muitos, mas o mais importante é que a “hora do conto” não deve ter cara de aula. Apesar de ser uma das mais expressivas ferramentas de ensino, a contação de histórias deve ser um espaço para o lúdico e o tempo para cada ouvinte “jiboiar” a história tem que ser respeitado. Muitas vezes ouço relatos de professores que cumprem a exigência da coordenação da escola de promover uma atividade logo após a história e, na maioria das vezes, é o desenho ou a dramatização. Calma… Devemos trabalhar com o elemento surpresa: um dia pode ser um desenho, no outro uma dobradura, uma modelagem ou apenas um espaço para ouvir histórias. Se o aluno fica condicionado a fazer um desenho logo após a narração, corremos o risco de fazê-lo usar o tempo da contação para resolver qual desenho vai fazer. Nada de “vou contar a história e depois vocês vão fazer um desenho bem bonito” ou então “vamos ouvir uma história e fazer um teatrinho depois”. Isso me faz lembrar de um outro aspecto ao qual devemos ficar atentos: nunca impregnar a história de diminutivos. Isso distancia a criança do narrador, parece que e o educador está lá em cima preservado no seu mundo de adulto e a criança lá embaixo, onde tudo é excessivamente pequeno. Sou de uma geração escravizada pelos frios exercícios de fixação do texto, pontuados por perguntas do tipo “quem é o protagonista ou quem é o antagonista”. As fichas de leitura que vêm encartadas nos livros devem ir direto para o lixo. Elas negam a individualidade do leitor e não ampliam as possibilidades de leitura de um texto. O repertório do educador é adequado procurar não estar impregnado de narrativas excessivamente pragmáticas e doutrinárias e, sim, ter a intenção de suscitar o prazer de compartilhar olhares de outras culturas, jeitos de pensar e entender a vida diferentes do nosso. Nisso, a escolha da tradução do conto é determinante para os bons resultados da sessão. E sempre contar histórias populares, claro. Elas são o nosso primeiro leite intelectual, já dizia Câmara Cascudo.

Equipe PIC: Você tem algum artigo ou livro publicado sobre contação de histórias? Onde podemos encontrá-los?

LAERTE: Publico artigos regularmente no meu boletim eletrônico: http://contadoreshistorias.spaces.live.com e em sites de Educação e Literatura Infantil. Acho que, em algum momento, eles vão virar uma publicação em papel. Mas confesso: morro de medo de virar um livro de receitas sobre a forma ideal de contar histórias. Equipe

PIC: Como você vê, nosso blog se refere ao trabalho de uma pesquisa que estamos realizando sobre a formação do leitor em diferentes espaços. Na sua opinião e a partir da sua experiência, quais seriam os melhores espaços para esse processo formativo?

LAERTE: A ambiência da sala de leitura, desde que não seja uma biblioteca demasiadamente sisuda, com um silêncio avassalador imposto, é a mais convidativa. Leitura é alimento: a contação é a entrada e os livros são o prato quente. Almofadas espalhadas pelo chão, livros em cestos com as capas se oferecendo para a leitura e ao alcance da mão da criança são elementos que contribuem para essa intimidade. Lombada de livro não convida a criança à leitura.

Equipe PIC: Como você avalia os programas do governo que procuram desenvolver a leitura, como o Proler, o Biblioteca na Escola, o Olimpíada de Língua Portuguesa, dentre outros?

LAERTE: Qualquer programa que seja em prol da formação de novos leitores é válido. No entanto, a maioria deles é a repetição de práticas que já têm um tempo de estrada. As vaidades pessoais fazem com que, a cada nova gestão, seja pulverizada a ação anterior e se dê a impressão de que tudo até o presente momento foi errado ou mal feito. Isso dizimou vários programas que vinham trazendo resultados expressivos. Não conheço de perto os programas citados, mas participei proximamente do Proler, ministrando oficinas de contadores de histórias por todo o Brasil e dinamizando grupos de leitura. A emoção com a qual cada cidade e os educadores nos recebiam, o esforço para tornar mais calorosa a educação e a descoberta de outras possibilidades para a promoção da leitura ficaram como um dos registros mais expressivos da minha trajetória de arte-educador.  Depois disso, uma grande sensação de orfandade acometeu os contadores de histórias, agentes de leitura e educadores.

 

Entrevista no Blog Mestres Narradores do Mímico e Contador Jiddu Saldanha.

 
Tive o prazer de assistir Laerte Vargas contar histórias em 3 ocasiões, durante o “Simpósio Internacional de Contadores de Histórias”. Sua forma de contar é simples, direta e impactante. Laerte é um mestre que estimula quem queira praticar esta arte milenar; através de suas oficinas e cursos. Nesta entrevista vamos conhecê-lo melhor. Jiddu Saldanha
Desde 1994, viaja o Brasil ministrando oficinas e prestando assessoria a grupos de contadores de histórias e programas de leitura. Atuou no Proler, Leia Brasil, Paixão de Ler e diversas Bienais do Livro, além da participação como especialista na arte de contar histórias em seminários e jornadas de leitura.
Ministrou oficinas e implantou núcleos de contadores nas empresas: Furnas, Sulamerica e Unimed-Rio.
Foi o fundador e dinamizador do Grupo Latão de Histórias da Comunidade do Morro Santa Marta.
Atualmente, coordena a Spaço dos Contos/RJ, o primeiro centro de formação continuada de contadores de histórias do Brasil.
 
Jiddu Saldanha – Como você iniciou sua carreira de contador de histórias?

Laerte Vargas – A primeira oficina de que participei já, de cara, me deixou muito instigado a continuar. Na verdade, ainda tinha o olhar do ator e o pouco investimento necessário para contar histórias me interessou mais como uma ferramenta profissional do que como uma opção de linguagem. Mal sabia eu que o bichinho do contar já havia me fisgado. Logo reuni um grupo de pessoas para que começássemos a contar e a formar um repertório. Felizmente encontrei algumas instituições que abriram as portas para o meu trabalho, que desde o início foi remunerado. Dessa forma, o ofício foi tomando cada vez mais espaço em minha vida e me deu retorno imediato para a compra de livros e impressão de materiais de divulgação. Trabalhei um ano direto com o Museu de Folclore Edison Carneiro, participando de festivais de contos populares, material que se tornou o grande nicho de pesquisa de repertório para mim. Depois disso, os convites se sucederam e não parei mais.

JS – Na tua opinião, existe alguma relação entre o fazer teatro e o contar histórias?

LV – Existe uma diferença que, para mim, é fundamental: o ator representa; o contador de histórias apresenta. Quando o narrador começa a se sobrepor à história e necessita de muitos elementos para evocar as imagens que ela suscita, aí deixou de ser contação e passou a ser outra coisa, bem diferente. Esse papo de contação teatralizada é conversa pra boi dormir. Sempre digo que contar histórias é um exercício de simplicidade e generosidade. Na maioria das vezes, os elementos cênicos são desnecessários, pois eles acabam engolindo a história e o pretenso contador, com sua vaidade exacerbada, vai passando como um trator por cima do conto. Assim, o que resta é apenas um exercício narcísico. É importante dar espaço para que os ouvintes criem suas próprias imagens: esse é um dos maiores trunfos da contação frente à tecnologia atual. A imaginação anda preguiçosa, pois tudo vem muito pronto e arrumadinho. A criança, principalmente, precisa muito dessa ginástica imaginativa.

JS – O que mais te inspira a seguir nessa carreira?

LV – Propagar a ideia de que qualquer um pode contar histórias. A espetacularização da contação tira essa possibilidade, dá a sensação de que só aquela tribo que cursou a escola “TAL” ou outro curso de teatro, que fez aulas com a fono da moda ou que fez um trabalho corporal mirabolante pode realizar. A intenção primeira das minhas oficinas é que todos saiam instigados a contar. Sempre existirão contadores para grandes espaços e contadores para pequenas salas. E todos eles são fundamentais à sociedade. Cada um com o seu tempo, o seu ritmo, o seu olhar único e inimitável. Contadores são como um oásis na aridez das relações humanas de hoje em dia.

JS – Cite algumas histórias que você considera fundamentais para o desenvolvimento humano.

LV – Todas as histórias tradicionais (a maioria oriunda da tradição oral) são fundamentais para o desenvolvimento humano. Basta investigarmos as entrelinhas. A primeira chamada do meu blog é: “Aqui as historinhas são coisa séria”. Acostumou-se a ver esse material como uma coisa descartável e/ou banal, mas elas tratam, em uma linguagem metafórica, dos percalços da nossa trajetória. Esses contos nos conduzem a reflexões profundas acerca das nossas decisões e padrões de comportamento. A vastidão desse material é impressionante: encontramos contos que falam de incesto, homossexualidade, compulsão, enfim, para cada questão do ser humano existe uma história curativa. Acho que a Clarissa (Pínkola Estés) disse alguma coisa assim.

JS – Como você vê o panorama da contação de histórias no Brasil de hoje?

LV – Existem profissionais que desenvolvem pesquisas primorosas, mas a contação virou uma moda que pode acabar transformando a arte de contar histórias em algo extremamente descartável como o batom da estação. Às vezes, quando recebo as programações dos seminários e encontros de contadores nos estados e municípios fico pesaroso, pois constato que os contadores de causo de cada lugar são muito pouco prestigiados. Preferem pagar passagem aérea, hospedagem e alimentação para o/a incrível contador/a de histórias que conta em parada de mão com uma banana enfiada no ouvido. Detalhe: ela conta de costas para o público. Cada estado tem um acervo riquíssimo de histórias populares e, certamente, tem quem as conte. E aquele jeito de contar que encanta é que é o jeito certo de contar. Que vivam e sobrevivam as diferenças!!!

JS – O que você recomenda para os jovens que queiram conhecer melhor esta forma de expressão artística e se profissionalizar?

LV – Ouvir muitas histórias e ler toda a obra dos irmãos Grimm. Ahhh, e não ter pressa nenhuma em se profissionalizar…

JS. Quem é Laerte Vargas por Laerte Vargas?

LV – Um menino que tem medo do boi da cara preta.

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24 comentários sobre “BATE-PAPOS COMIGO

  1. Olá Laerte Vargas, sou contadora de história e agente de leitura há dois anos aqui no município de Sobral-CE, confesso pra você que antes eu lia muito pouco o suficiente para me apropriar de alguns assuntos, apesar de ser Pedagoga há mais de 10anos, ter especialização em Educação Especial e graduanda em Biologia. A contação de história hoje pra mim é tudo de mais importante,pois nem eu sabia que eu sabia contar história e para enriquecer meus conhecimentos gostaria de participar desses fóruns que você faz.

    • Ok, Isabel.
      Estou aqui a postos para responder às questões que os internautas postarem.
      Ainda se lê muito pouco e não sinta culpa quanto a isso. Acho que devemos ficar atentos à pouca leitura que fazemos do nosso entorno: as histórias populares que ainda são preservadas graças aos contadores anônimos que vivem nos distritos, os ditos populares, as simpatias, benzeduras, as casas assombradas e as histórias que elas guardam…
      A tendência sempre é importar esse conhecimento e ele está à nossa volta.
      Senti isso muito forte quando desenvolvi o projeto no Morro Santa Marta/RJ. Como é rico o acervo oral das comunidades e que grandes ensinamentos eles trazem!
      Olhe em volta, abra os ouvidos e escancare o coração!
      Qualquer dúvida, estou por aqui!!!

  2. Mestre querido
    Que maravilha está o novo endereço. Adorei o “à la antiga” como Roberto Carlos. Vou passear muito por aqui para continuar sempre aprendendo com você. Parabéns. Beijos Cecília

  3. Boa Noite Larte!!!
    Sou apaixonada por contação de história, e faz um tempinho que vem lendo sobre o tema. Encontrar o seu blog foi muito enriquecedor para meu estudo, apesar de ter pouca experiência na área, acho que levo jeito. Quanto ao uso de acessórios para contar história, tipo: avental, dedoche e outros,
    ou que acha??
    Parabéns pelo seu trabalho!!!
    Com carinho,
    Geise Martins.
    Uberlândia/MG

    • Olá, Geise.
      A paixão pelo contar, esse fogo que te ilumina cada vez que vai dar voz a um conto é que deve ser o grande norteador do seu trabalho.
      Uma rápida leitura dos meus artigos já dá a dimensão de que busco o resgate da figura do narrador na sua plenitude; ou seja, isento de quaisquer outros recursos que não sejam os vocais e corporais.
      Como os contadores de causo lá dos tempos idos…
      Essa simplicidade no contar e uma sofisticação no processo de pesquisa, na elaboração do repertório são o grande mote do meu trabalho.
      No entanto, é importante não confundir simplicidade com isenção de colorido na voz, nuances, climas e intenções… Simplicidade no que tange a permitir que o imaginário dos ouvintes crie seu próprio mundo fantástico.
      Acredito que a criança, hoje em dia, careça de uma ginástica imaginativa, pois tudo vem muito pronto e aí que o nosso trabalho entra com muita expressividade.
      Mas, antes de tudo, acredite no que você faz e siga em frente…
      Experimente usar e não usar e perceba se eles realmente são indispensáveis.
      Depois me conte, adoro ouvir relatos!!!
      Muita Luz procê!!!

  4. Como vai Laerte Vargas?

    Me chamo Manuel Lima, professor, poeta e arte-educador que tem fascinio pela leitura, e criei o Projeto Hora da Leitura, onde faço brincadeiras, canto e conto histórias, em que ao término eu levo as crianças a contarem a história através do desenho.Foi a partir dessa minha experiência que minha segunda Pós-Graduação em Arte-Educação que resolvi fazer o meu artigo. Por isso, viajando pelos sites para encontrar assuntos sobre contação de histórias para realizar o meu projeto de pesquisa, me deparei com esta maravilha de tesouro. Mas estou com dificuldades de bibliografias, ou melhor autores que falem sobre o inicio dos contadores de história. Até passei um email para você e não obtive resposta. Gostaria de estreitar os laços compartilhando com você o que eu escrevo. Inclusive escrevi três livros infantojuvenil, um se chama O País dos Livros, Charlotte, uma pata sonhadora e Conto e Acalanto de poesias e histórias.

    Abraços

    Manuel Lima

    • Prezado Manuel,
      Posso garantir a você que houve algum extravio no envio do seu e-mail, pois é muito pouco provável que eu tenha deixado sua mensagem sem resposta. Mesmo aquelas que não atendem às expectativas do blog, eu respondo aclarando as intenções do mesmo.
      Sempre poetizo dizendo que o primeiro contador de histórias surgiu quando um filho perguntou ao pai porque o sol e a lua não se encontram no céu e ele lhe contou uma linda lenda popular. Não dá pra gente precisar, o homem sempre precisou das histórias para justificar nossa presença no mundo, os fenômenos da natureza, as etnias, a criação dos animais, tudo, tudo, tudo…
      Posso citar dois título importantes pra você: A Palavra do contador de histórias – Gislayne Avelar Matos e um dos primeiros livros que li na minha trajetória, o Literatura Infantil – Gostosuras e Bobices – da queridona (smack, smack) Fanny Abramovich.
      Quanto a estreitar laços, estou disponível, sim. Aliás, as histórias já fizeram isso pela gente.
      Abraços calorosos e um grande ano.

  5. Olá, Boa Tarde!
    Estou neste momento muito contente, pois encontrei este site, pois sou uma apaixonada por contação de história, porém sou insegura ainda em contar para público, gostaria que me desse uma dica da minha primeira historia para eu contar. Sou coordenadora de um projeto educação infantil e preciso dessa habilidade de contar histórias, inclusive estou tento que preparar um curso sobre contação de historia, e se vou ministrar esse curso, preciso contar pelo menos umas três historias, por favor me deem dicas.
    Desde já agradeço.
    Geana

    • Prezada Geana,
      A mais importante dica que posso lhe dar sobre a primeira (e todas) histórias do seu repertório, é que elas devem ser sempre escolhidas via coração. É algo mágico que acontece, como se a história escolhesse você.
      E cuidado com esse movimento de “precisar dessa habilidade” e de “ter que preparar um curso de contação”. As coisas não passam muito por aí, não. A arte de contar histórias não é uma técnica que você possa “empurrar” pra dentro, ela é um dom e é preciso lidar com ela com muita delicadeza.
      Digo isso, pois o preâmbulo do seu relato fala de uma paixão, mas logo depois cai num apelo puramente racional. Deixe a paixão levar você, ela a conduzirá por infinitas descobertas.
      Abraços calorosos,

  6. Oi Laerte encontrei seu blog por acaso e me apaixonei.Sou professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental,graduada em pedagogia e pós em Educação Especial e no momento estou cursando Faculdade de Arte. Trabalho na Educação Infantil no momento e adoro contar histórias mas tenho muita dificuldade,parece que não consigo cativar as crianças como gostaria.Será que existe maneiras legais de chamar mais atenção da galerinha? Agradeço desde já sua atenção.

    • Olá, Suzana.
      Na maiaoria das vezes, temos a impressão de que criança participante é criança que grita, esganiça, se descabela.
      “Bom dia!”
      “Não ouvi! Bom dia!”
      “Ué, não comeram feijão hoje, não?! Bom dia!”
      Enfim, a criança é levada a um estado inicial de euforia que torna difícil abrir a escuta para uma sessão que envolva contos de fada, lenda, contos mais extensos…
      Isso me angustia muito em sessões de histórias. Nota zero para contadores e animadores que usem esse recurso.
      As crianças dispostas em roda para a contação, essa mágica mandala onde todos se olhem, compartilhem, um aquecimento que envolva concentração, um repertório acertado para a faixa etária e o tempo certo de duração de uma sessão (entre 30 e 40 minutos), tudo isso contribui para o sucesso da sua atividade.
      Tentei visitar o seu site e ele não entrou, pois fiquei curioso com o nome dele: cantinho da arte e da bagunça. Será que talvez não esteja faltando um pouquinho de disciplina nessa turminha?
      Luz procê e me dê notícias!!!

  7. Oi! Adoro histórias com final felizes pois a vida já é complexa de mais p/ começar amarga. procuro um contador de história p/ festa infantil, meu filho fará 9 anos no sa´bado dia 07 de julho. sr. faz trabalho deste. seria de 15hs até 17hs na mina casa na Tijuca, Rua Andrade Neves . abraços vera cristina

  8. Ola,adorei o artigo, vou fazer meu TCC sobre contação de Histórias para a Terceira Idade e gostaria de alguma sugestão de livros acerca do assunto, se alguem puder me ajudar com sugestões bibliográficas agradeço desde ja, meu email é anaaninha55@yahoo.com.br

    • Pois é, Ana.
      Não conheço nenhuma obra que aborde o tema com tanta especificidade.
      Sei de todos os benefícios que temos ao trabalharmos com os contos tradicionais nessa faixa etária: resgate da autoestima, da memória afetiva, da ambiência de afeto, mas sempre acreditei e continuo acreditando que a arte de ouvir e contar histórias é para agregar indivíduos de todas as faixas e camadas sociais e etárias.
      Existem abordagens de contação de histórias para idosos que apresentem sintomas de Alzheimer, mas pertence a um universo pelo qual não orbito.
      Leia alguns poucos livros e procure ouvir grupos e seus relatos. Acho o mais enriquecedor para o seu trabalho.
      Abraços calorosos,

  9. laerte vargas, belas é ouvir um contador como você fazer lindas e emotivas frases com as mesmas letras que outros nos machucam.
    se eu puder um dia vou mudar o meu nome proprio para “apaixonado;
    apaixonado só pra respoder a quem se intrigar ou interessar saber que sou apaixonado pela arte de contar, contar para aprender para sorrir,ajudar,ensinar,trasnformar,confrontar,crescer,amar,e ser amo,
    quero ser um aprendiz de suas teorias e aprender a sentir e faze-los sentir o sabor da fruta quando eu apenas falar o nome delas.
    esta qualidade,arte,sabedoria,influencia,essencia tem uma fonte.
    desta fonte sei que você, meu mestre, sera meu canal,meu guia,meu bussula.
    por favor te espero pra ouvir segundos,minutos,horas dos seus cursos

  10. Olá Laerte !
    meu nome é Márcia Cristina,faço um trabalho social voltado para o incentivo à leitura através da contação de história.Pretendo elaborar um projeto de contação de histórias para oferecer às escolas particulares do Rio, porém não sei como cobrar pelo trabalho, já que faço isso de forma gratuita.. Você poderia me orientar?

    • Prezada Marcia,
      Sou de opinião que o custo do pro-labore só pode ser dimensionado pelo profissional.
      Avalie as horas de pesquisa, deslocamento, número de sessões e chegará a um valor justo para você.
      Abraços calorosos,

  11. ola boa tarde, eu gostaria de fazer uma pergunta: Como resolver o problema de contação de histórias na Ed Infantil se ele estivesse em suas mãos? grata.
    Aguardo respostas.

    • Prezada Raquel,
      Sempre digo que não existe uma receita que, se seguida à risca, garanta o sucesso de uma prática leitora.
      É preciso conhecer o seu entorno, as crianças envolvidas, a influência dos pais, o contexto social; enfim, entrar na pulsação de um grupo para poder buscar ações que dinamizem a leitura.
      Uma certeza eu tenho: o caminho é através da leitura (ou contação) das histórias tradicionais… E fazer com que a sala de aula respire essa ambiência tendo um cantinho com um pequeno acervo com tapete, almofadas, tudo propiciando um encontro prazeroso com os livros.
      Abraços calorosos,

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