PESQUISA CONTADORES DE HISTORIAS

FELIZ DIA INTERNACIONAL DA LITERATURA INFANTIL!

ANIVERSÁRIO DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN

CONTAM QUE…
O PAI, SAPATEIRO, COM A INTENÇÃO DE APLACAR A FOME DO MENINO, DESFILAVA SEU REPERTÓRIO DE HISTÓRIAS POPULARES.
ALIMENTADO POR UM MUNDO DE SONHOS, CRESCIA AQUELE QUE, MAIS TARDE, DEDICARIA GRANDE PARTE DE SUA VIDA À PRODUÇÃO DE CONTOS DE FADA.
O AUTOR SOFRIA MUITO COM SUA PRÓPRIA APARÊNCIA, ALGUNS PESQUISADORES OUSAM DIZEM QUE “O PATINHO FEIO” É, NO FUNDO, A HISTÓRIA DO PRÓPRIO ANDERSEN.
DEIXOU UM LINDO LEGADO PARA NOSSO DESFRUTE E ENCANTAMENTO…
SEUS CONTOS SOBRE PROSCRITOS E, ÀS VEZES, EXTREMAMENTE TRISTES, REVELAM UMA VIDA DE SOFRIMENTO.

Hans Christian Andersen
Escritor dinamarquês
Fonte: Biografias

Hans Christian Andersen (1805-1875) foi escritor dinamarquês. Autor de “Soldadinho de Cumbo”, “O Patinho Feio”, “A Pequena Sereia”, entre outros contos infantis, que percorreram o mundo.

Hans Christian Andersen (1805-1875) nasceu em Odense, Dinamarca, no dia 2 de abril de 1805. Seu pai era sapateiro, mas tinha sonhos grandiosos. Alistou-se como soldado, para lutar nas guerras napoleônicas. No entanto, um ano mais tarde, voltou gravemente doente à sua terra natal, onde veio a falecer.

Quando sua mãe casou novamente, Hans teve que se cuidar sozinho. Não conseguiu se adaptar a nenhum ofício. Abandonou os estudos por falta de recursos. Começou a criar contos e pequenas peças teatrais. Nessa época uma companhia de teatro estava percorrendo o interior da Dinamarca. Andersen não perdeu nenhuma apresentação. Terminada a temporada, a companhia seguiu viagem.

Hans resolve partir. Com uma carta de apresentação, foi para Compenhague, capital do país. Não encontrou ninguém que estivesse disposto a empregá-lo. Os estudos de balé, aos quais se dedicou, não o ajudaram em nada. As decepções não o desanimaram. Sentia-se cada vez mais atraído pelo teatro e não parava de escrever peças. Duas peças suas chegaram às mãos do conselheiro de Estado, que ofereceu-lhe uma bolsa de estudos.

Foram seis anos passados na escola de Slagelse, apesar de ser o mais velho e o maior da turma. Aplicou-se nos estudos com afinco. Terminado o curso, estava com 22 anos. Para sair da crise financeira, escreveu histórias infantis, baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez o resultado foi excelente, os contos foram um sucesso. Divulgados rapidamente, deu-lhe a fama que ele tanto procurava.

Obras de Hans Christian Andersen
A Agulha de Cerzir
A Caixinha de Surpresa
A Casa Velha
A Colina dos Elfos
A Margaridinha
A Pastora e o Limpador de Chaminés
A Pequena Sereia
A Pequena Vendedora de Fósforos
A princesa e o Grão de Ervilha
A Rainha da Neve
A Roupa Nova do Rei
A Sombra
As Cegonhas
As Flores da Pequena Ida
As Galochas da Fortuna
Cada Coisa em seu Lugar
Cinco Grãos de uma só Vagem
Dentro de Milênios
Ela Não Valia Nada
Histórias Que o Vento Contou
João-Pato
Mágoas do Coração
Nicolau o Grande e Nicolau Pequeno
O Anjo
O Boneco de Neve
O Colarinho
O Companheiro de Jornada
O Guardador de Porcos
O Isqueiro Mágico
O Jardim do Paraíso
O Menino Mau
O Patinho Feio
O Pinheirinho
O Que o Velho Faz Está Bem Feito
O Rouxinol
O Sino
Os Namorados
Os Novos Trajes do Imperador
Os Saltadores
Os Sapatos Vermelhos
Soldadinho de Chumbo
Os Sapatinhos Vermelhos
Uma Família Feliz
Uma História
Livro de Imagens, sem Imagens
Nada Como um Menestrel
O Improvisador
O Romance da minha Vida

Hans Christian Andersen
Hans Christian Andersen

 

 

 

 

 

 

 

DIA 18 DE ABRIL
DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

No Brasil, o dia de nascimento de nosso autor maior da literatura infantil MONTEIRO LOBATO, foi escolhido como DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL.

O site velhosamigos traz as seguintes informações sobre o autor:

José Bento Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, no Vale do Paraíba. Estreou no mundo das Letras com pequenos contos para os jornais estudantis dos colégios Kennedy e Paulista.

No curso de Direito da Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo, dividiu-se entre suas principais paixões: escrever e desenhar. Colaborou em publicações dos alunos, vencendo um concurso literário, promovido em 1904 pelo Centro Acadêmico XI de Agosto.

Morou na república do Minarete, liderou o grupo de colegas que formou o “Cenáculo” e mandou artigos para um jornalzinho de Pindamonhangaba, cujo título era o mesmo daquela república de estudantes.

Nessa fase de sua formação, Lobato realizou as leituras básicas e entrou em contato com a obra do filósofo alemão Nietzsche, cujo pensamento o guiaria vida afora.

Viveu um tempo como fazendeiro e foi editor de sucesso. Mas foi como escritor infantil que Lobato despertou para o mundo em 1917.

Escreveu, nesse período, sua primeira história infantil, “A menina do Narizinho Arrebitado”. Com capa e desenhos de Voltolino, famoso ilustrador da época, o livrinho, lançado no natal de 1920, fez o maior sucesso. Dali nasceram outros episódios, tendo sempre como personagens Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Tia Anastácia e, é claro, Emília, a boneca mais esperta do planeta.

Insatisfeito com as traduções de livros europeus para crianças, ele criou aventuras com figuras bem brasileiras, recuperando costumes da roça e lendas do folclore nacional. E fez mais: misturou todos eles com elementos da literatura universal da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema.

No Sítio do Picapau Amarelo, Peter Pan brinca com o Gato Félix, enquanto o Saci ensina truques a Chapeuzinho Vermelho no país das maravilhas de Alice. Mas Monteiro Lobato também fez questão de transmitir conhecimentos e ideias em livros que falam de história, geografia e matemática, tornando-se pioneiro na literatura paradidática – aquela em que se aprende brincando.

Trabalhando a todo vapor, Lobato teve que enfrentar uma série de obstáculos. Primeiro, foi a Revolução dos Tenentes que, em julho de 1924, paralisou as atividades da sua empresa durante dois meses, causando grande prejuízo. Seguiu-se uma inesperada seca, obrigando a um corte no fornecimento de energia. O maquinário gráfico só podia funcionar dois dias por semana.

E, numa brusca mudança na política econômica, Arthur Bernardes desvalorizou a moeda e suspendeu o redesconto de títulos pelo Banco do Brasil. A conseqüência foi um enorme rombo financeiro e muitas dívidas. Só restou uma alternativa a Lobato: pedir a autofalência, apresentada em julho de 1925. O que não significou o fim de seu ambicioso projeto editorial, pois ele já se preparava para criar outra empresa.

Assim surgiu a Companhia Editora Nacional. Sua produção incluía livros de todos os gêneros, entre eles traduções de Hans Staden e Jean de Léry, viajantes europeus que andaram pelo Brasil no século XVI. Lobato recobrou o antigo prestígio, reimprimindo na empresa sua marca inconfundível: livros bem impressos, com projetos gráficos apurados e enorme sucesso de público.

Sofreu perseguições políticas na época da ditadura, porém conseguiu exílio político em Buenos Aires. Lobato estava em liberdade, mas enfrentava uma das fases mais difíceis da sua vida. Perdeu Edgar, o filho mais velho, e presenciou o processo de liquidação das companhias que fundou e, o que foi pior, sofreu com a censura e atmosfera asfixiante da ditadura de Getúlio Vargas.

Partiu para a Argentina, após se associar à Brasiliense e editar suas “Obras Completas”, com mais de dez mil páginas, em trinta volumes das séries adulta e infantil. Regressou de Buenos Aires em maio de 1947 para encontrar o país às voltas com situações conflituosas do governo Dutra. Indignado, escreveu “Zé Brasil”.

No livro, o velho “Jeca Tatu”, preguiçoso incorrigível, que Lobato depois descobriu vítima da miséria, vira um trabalhador rural sem terra. Se antes o caipira lobatiano lutava contra doenças endêmicas, agora tinha no latifúndio e na distribuição injusta da propriedade rural seu pior inimigo. Os personagens prosseguiam na luta. Porém, seu criador já estava cansado de tantas batalhas. Monteiro Lobato sofreu dois espasmos cerebrais e, no dia 4 de julho de 1948, virou “gás inteligente” – o modo como costumava definir a morte.
Monteiro Lobato foi-se aos 66 anos de idade, deixando uma imensa obra para crianças, jovens e adultos e o exemplo de quem passou a existência sob a marca do inconformismo.

FRASE LOBATIANA

 

   CÂMARA CASCUDO: O Colecionador de Crepúsculos

IN http://www.cascudo.org.br/biblioteca/vida/biografia/

 

Luís da Câmara Cascudo, construtor de monumentos culturais imorredouros, nasceu no dia 30 de dezembro – dedicado a São Sabino – de 1898, numa sexta-feira, às dezessete horas e trinta minutos – momento do Ângelus – na Rua Senador José Bonifácio, número 212, conhecida Rua das Virgens, no bairro da Ribeira, Cidade do Natal. Um canguleiro, pela divisão existente.

Seus pais, Francisco Justino de Oliveira Cascudo (27/11/1863 – 19/05/1935) e Ana Maria da Câmara Pimenta ou Donana (17/02/1871 – 09/03/1962) eram parentes próximos, ambos de Campo Grande, Rio Grande do Norte. Ele, militar de coragem comprovada, líder, habilidoso conversador, caridoso, honesto e respeitado comerciante no final da existência. Ela, religiosa, bondosa, dedicada dona de casa.

Luís tinha sido um sobrevivente das moléstias que acometeram seus irmãos. Maria Octávia e Antonio Haroldo faleceram em Caicó, onde o genitor era Delegado Militar. Já em Natal, Maria Severina, que trazia os olhos azuis paternos, morreu em 1903, com um ano e três meses. Todos sucumbiram da mesma enfermidade, crupe ou difteria.

A parteira foi Bernardina Nery, falecida no Bairro das Rocas, onde morava, em 25 de agosto de 1922, com oitenta e dois anos. Trouxera ao mundo mais de oitocentas crianças. Ouvindo o choro alto do nascituro, o pai, Tenente do Batalhão de Segurança, perguntou aflito:

– Homem ou Mulher?

Respondeu “Mãe” Bernardina:

– Ele veste calças.

Cascudo sempre respeitou sua masculinidade. Apesar da ausência de preconceitos que o caracterizava jamais se fantasiou de menina nem mesmo usou saiote kilt em festa escocesa.

O nome escolhido foi promessa materna, que desejava Luís de França. O pai vetou o “de França”, mantendo a ortografia. Luís permaneceu com a letra “esse”.

Batizou-o Santo Padre João Maria, na Capela do Bom Jesus das Dores, na Ribeira, hoje Matriz, no dia 9 de maio de 1899. Seus Padrinhos foram o Desembargador Joaquim Ferreira Chaves, Governador do Estado, e sua esposa D. Alexandrina Barreto Ferreira Chaves, amigos da família.

O Padrinho estudara latim e respondeu naquele idioma as perguntas do sacerdote. O Padre João Maria, hoje canonizado pela sabedoria popular, com busto em bronze perpetuamente cercado de velas e ex-votos, abençoou-o com nome em latim: Ludovicus. Ao término da cerimônia religiosa, a madrinha entregou o batizando à sua mãe, que ficara na residência, como era o costume, dizendo as palavras tradicionais:

– Comadre, aqui está seu filho, que levei pagão e trago cristão!…

Até sua morte, Luís procurou manter a fé e merecer sua cristandade.

Cascudo não denominava realmente a família paterna, constituída dos Justino de Oliveira, Gondim, Ferreira de Melo, e Marques Leal. Antonio Justino de Oliveira (1829-1891), pai de Francisco, filho de Antonio Marques Leal (1801-1891), vindo do português do mesmo apelido, era chamado de “o velho Cascudo”, pela devoção ao partido Conservador, possuidor de tal alcunha. Somente Francisco Justino e o irmão Manuel (1864- 1909) juntaram Cascudo ao nome. Manuel faleceu em São Paulo, major da Polícia Militar, Comandante da Guarda Cívica, casado com a alemã Carlota Ester, sem descendência. Luis da Câmara Cascudo foi assim registrado para perpetuar a tradição nascida com o pai e o tio Manuel. Nos primeiros anos do Século XX unicamente Luís e o primo Simplício, filho da tia Maria Severa e de criação de Francisco Justino, eram Cascudo. Depois o nome foi adotado por alguns primos, tornando-se “popular” no Estado.

Cascudo não é o besouro, o coleóptero, nem muito menos o gestual de castigo. É um peixe de loca, acari, Precostomus loricariae. Cascudo é peixe, padrinho do rio Carioca, vindo do Acari-Oca, paradeiro dos Acaris. Luís da Câmara Cascudo, estudioso da heráldica, incluiu o peixe no seu ex-libris, acrescido da máxima latina: Dum Spiro Spero, que significa: enquanto respiro, espero. Dizia Jorge Amado que era a afirmação da esperança. Hoje o ex-libris acrescido do nome Ludovicus, é registrado pelo Instituto Câmara Cascudo, perpetuador do seu nome, obra, essência.

O primeiro banho do menino Luis foi com água morna, bem temperada com vinho do Porto. A “simpatia” era para ficar forte. Foi acrescentado um patacão de prata, do Império. Promessa de nunca faltar dinheiro. Conclui-se hoje que foram bem intencionados, mas sem garantias reais e palpáveis de concretização.

Menino magro, enfermiço, pálido, cercado de dietas e restrições clínicas, assim se auto-descrevia meu pai. Mas os amigos mais próximos, Jaime Wanderley e “Babuá”, rejeitavam esses adjetivos. Afirmavam que os professores, especialmente Francisco Ivo Cavalcanti recordava criança vivaz, alegre, inteligente, buliçosa, inquieta. Mesmo proibido de correr, pular, pisar descalça na areia, subir em árvores, tudo pelo receio dos pais de ter Luis a destinação dos irmãos, aproveitava as oportunidades para desafiar a sorte. Obediente na aparência. Brincava no quarto cheio de brinquedos. Obrigavam-lhe o sedentarismo. Mas fugia, dando asas à sua imaginação sem limites, tomando banho frio, brincando na rua, pescando no rio Potengi.

Aprendeu a ler sozinho aos seis anos, graças à revista Tico-Tico. Sua primeira professora foi Totônia Cerqueira, que lhe amarrou no braço uma fita azul, jurando seu aluno ter aprendido tudo que ensinara. Estudou no Externato Sagrado Coração de Jesus, no Colégio Diocesano Santo Antonio. Morando no Tirol, os pais resolveram pelo ensino a domicilio. Professores magistrais, depois tornados amigos diletos: Pedro Alexandrino, Francisco Ivo Cavalcanti, Ivo Filho. Lia muito, tudo que encontrava. Revistas, álbuns, gravuras, almanaques, novidades, estórias. A curiosidade ilimitada que possuía abria seus tentáculos para o mundo que o cercava. Em 1914 passou a freqüentar cursos, preparando-se para os exames no Atheneu Norte-Rio-Grandense. Lá, estudou Humanidades, e se “enturmou”. Queixava-se do isolamento infantil. Da ausência dos “melhores amigos”. De brincar sozinho, com soldadinhos vindos da Alemanha, estação com trens ingleses, casa de madeira, armada sobre rodas no quintal da residência na Campina da Ribeira. Jaime Adour da Câmara (1898-1964) era um dos íntimos. A casa, depois “Vila Cascudo”, vivia repleta de amigos e era o supra-sumo da Democracia posta em prática: hospedou com o mesmo carinho a Família Imperial e Fabião das Queimadas, cantador que fora escravo.

Sobre a “Vila Cascudo”, façamos algumas considerações importantes. Em fins de 1913, Francisco Cascudo, empresário, adquiriu ao arquiteto Herculano Ramos, por vinte mil réis, a “Vila Amélia”, no Ti rol, “região de chácaras e quintais”. A propriedade abrangia três quartas partes do quarteirão entre as avenidas Campos Sales e Rodrigues Alves, Rua Apodi ao fundo e à frente a Jundiaí, número 93. Paralelamente, a Avenida Rodrigues Alves, era quase toda de Cascudo, lembra Jaime Câmara (Revista Província 2, 1998). No ângulo com a Rua Apodi, presenteou ao Monsenhor José Alves Ferreira Landim, o terreno para a construção da Capela de Santa Terezinha do Menino Jesus, hoje Matriz, “onde nenhuma inscrição rememora a generosa dádiva” (Luis da C. Cascudo, O Tempo e Eu). O Coronel Cascudo murou-a de balaustres e instalou-se com a mobília adquirida do Senador Pedro Velho, jacarandá entalhado de dragões, descanso em rosáceas confeccionadas de veludo francês. Pérgula, do terraço ao portão na Rua Jundiaí. A sala de visitas era pintada a óleo com grinaldas e florões, pelo artista espanhol Rafael Foster que aqui residia. Mosaicos belgas em toda a extensão residencial, vindos do antigo proprietário. Tetos forrados em fundo de masseira. Lustres de cristal tcheco. No saguão, iluminado pelas janelas de rechias, abria-se a primitiva biblioteca de Herculano, depois com literatura selecionada por Henrique Castriciano e Pedro Alexandrino. No meio dos livros, Luís se sentia no Paraíso…

Árvores de frutos raros, que eram podadas por jardineiro italiano; cajueiros, mangueiras, jambeiros. Frondosos e plenos de frutas deliciosas. Caramanchões com jasmins do cabo, resedás e bogarís, de odor penetrante. Donana Cascudo conservava um jardim lindíssimo, que contornava a casa. Possuía enorme variedade de rosas, de cores diversas, e mais de duzentas dálias, de tamanhos e tons diferenciados. Profetizava o nome de quem seria sua nora, Dáhlia. Na Vila, seriam recebidas as maiores personalidades nacionais. Perto do largo portão da Rodrigues Alves, o estábulo das vacas holandesas, e a estribaria do Cavalo Cossaco.

Luís da Câmara Cascudo foi para a Vila ou Principado do Tirol adolescente, com quinze anos incompletos. Saiu de lá aos 34, bacharel, professor, pobre, casado e com um filho, sustentando mãe, pai, esposa e primogênito. F. Cascudo hipotecara todo aquele mundo por trinta réis, e não conseguiu saldar a dívida, executada. Não pediu nem solicitou auxilio de ninguém. Donana lhe entregou todas suas valiosas jóias, que depois assistia, sendo usadas pelas mulheres dos “amigos…”. Todos os empréstimos, feitos sem recibos pela credulidade do Cel. Cascudo não foram resgatados. A conhecida promessa da honra motivada por um fio de cabelo do bigode do devedor não funcionou… A falência do pai provocou uma imensa reviravolta na vida do filho, segundo suas próprias palavras: “A pobreza de meu pai, altiva e nobre, não me permitia abandoná-lo e viajar para o sul, vencer no Rio. Filho único devia retribuir em assistência quanto tivera em pecúnia e carinho. Fiquei, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser até a velhice, professor jagunço. Sem perder o aprumo senhorial, o olhar azul irresistível, as maneiras gentis e afáveis. Continuou uma das figuras mais prestigiosas e queridas da cidade.” (“O Tempo e Eu”, Luís da Câmara Cascudo).

Sua verdadeira vocação era ser cientista. Foi cursar medicina na Bahia em 1918. Fez até o quarto ano. Sonhava possuir laboratório e desenvolver pesquisas. Naquele tempo não havia a especialidade. Era indispensável ter uma esmeralda no dedo. Mas com meu avô, Francisco Justino de Oliveira Cascudo já empobrecido, o filho não poderia ser mais um pesquisador na terapêutica tradicional, como desejava. Os móveis, os utensílios, tudo demandava muito dinheiro. Sem uma queixa, abandonou o curso no último ano e fixou-se na Cidade do Natal. Começou a ensinar nos Colégios e Cursos particulares.

Foi para a Faculdade de Direito do Recife, levando as economias pessoais, hospedado em pensões humildes e típicas. Em dezembro de 1928 formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais. A pobreza do seu pai, altiva e nobre, não lhe permitia abandoná-lo e viajar para o sul, mesmo recebendo convites tentadores. Já era noivo. Filho único devia retribuir em assistência quanto tivera em pecúnia e carinho. Ficou, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser até a velhice, professor jagunço.

Professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense em 1928, Américo de Oliveira Costa relembra as aulas que fascinavam alunos, com a classe repleta de intelectuais que vinham assisti-las, incrédulos pela verve e erudição demonstradas, contrastando com sua jovialidade. É válido registrar que até pouco tempo atrás, era conhecido como jornalista brilhante e filho de milionário. Agora era sustentáculo familiar. Ensinava História Geral e do Brasil em diversos cursos e ainda dava aulas particulares. Permanecia lendo e escrevendo sem descanso. Sem dúvida, um trabalhador. Foi ainda Professor da Escola Normal, dos Colégios D. Pedro II e Marista, e Nossa Senhora das Neves. Um guerreiro. Em 1950, o Governador José Augusto Varela nomeou-o Diretor do Museu e Arquivo. Antes fora advogado de funcionários da Great Western e Secretário do Tribunal de Justiça, com a penitência diária de lavrar atas. Junto com Valdemar de Almeida, fundou um Instituto de Ensino Musical. Dizia-se apaixonado pela Música, popular ou clássica. Lia as pautas com rapidez impressionante. Foi esta a base para a criação da Escola de Música.

Silvio Piza Pedrosa, grande amigo, companheiro na deslumbrante tarefa diária de buscar os mais belos crepúsculos da cidade, lembrou do seu nome para a recém fundada Faculdade de Direito do Natal em 1951. Mas antes ensinava Etnografia na Faculdade de Filosofia e Ética na Faculdade de Serviço Social. Foi, com Onofre Lopes e uma plêiade de abnegados, capitaneados pelo Governador Dinarte de Medeiros Mariz, um dos responsáveis pelo ingresso no nível de Universidade que seria Federal. Seu discurso na Cerimônia de Abertura da Universidade, em 1959, até hoje é citado pela perfeição textual. Em algumas Faculdades de Filosofia ou Jornalismo do Sul, exemplo de técnica, traduzido para vários idiomas.

Professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito de Natal, como atesta Américo de Oliveira Costa, “revolucionou a maneira de ensinar”. Seus alunos aprendiam o Direito autêntico, aquele que engloba todas as matérias do conhecimento. Era o Direito Filosófico, eterno. Mas também atual prático. Seus exemplos reuniam o cotidiano internacional. Discutia e explicava noticias diárias e ocorrências. Mas também se valia das raízes greco-romanas. Berilo Wanderley, saindo da classe, me confidenciou: “Estou emocionado, colega. Seu pai se serviu da aritmética elementar para nos fazer entender as leis que regem o direito aéreo e o marítimo. Caíram as fronteiras da nossa ignorância.” Sua vasta cultura conseguia emoldurar a legislação mundial e reuni-la na algibeira da nossa limitação. Foi o mais completo, o mais delicioso e imperdível Professor de Direito. Diógenes da Cunha Lima relata: “quem foi seu aluno sofre de uma eterna orfandade, uma lacuna jamais preenchida.”

Nomeado Terceiro Consultor Geral do Estado, em 1959, pelo Governador Dinarte, recebeu salário digno, justiça que veio tarde, mas válida.

Filho único de Chefe Político, com o dom da palavra e carisma de líder, o mundo não aceitava seu desinteresse eleitoral. Amigo de Dinarte e Aluisio Alves, em entrevista, declarou que era impossível para ele dividir conterrâneos em cores ou gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com a sua gente. “Meu país vive e pensa no nosso corpo”, repetia. Nacionalmente, foi muito convidado à Senadoria. “O difícil é escolher o estado. Sou principalmente brasileiro. Amo todo o seu território”, finalizava.

Professor foi a sua destinação. Ainda na UFRN dirigiu o Instituto de Antropologia, hoje Museu Câmara Cascudo. Aposentou-se em 1966. Em 1967 recebeu o Título de “Professor Emérito” e, em 1977, o de Doutor Honoris Causa.

Presença ativa em todas as frentes da atividade local, nacional e internacional. Ergueu a escada ascendente de sua obra pioneira e única, adquirindo conhecimentos graças a esforço isolado, pesquisa paciente e labor continuo que o tornaram sábio. Solitariamente, sem recursos pecuniários e em rincão nordestino, produziu um conjunto de obras de pesquisa, análise e interpretação da realidade brasileira em todos os ângulos, de elevado grau de criatividade e densidade cultural.

Estudiosos da sua biografia, documentando-a analiticamente, ressaltam que esse fenômeno das nossas letras provou que é possível escrever livros que revelam ampla erudição e pontos de vista absolutamente pessoais, numa cidade sem bibliotecas, vivendo sem nenhum privilegio de fortuna e de poder, trabalhando duramente para manter a família. Segundo Carlos Drummond de Andrade, “ele diz, tintim por tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Não é apenas o Homem-Dicionário que sabe tudo, é muito mais, e sua vasta bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela existência de trabalho inserido na preocupação de “viver” o Brasil.”

Na sua obra, pois, há o historiador, o etnógrafo, o folclorista, o antropologista, o sociólogo, o ensaísta, o jornalista, o tradutor de diversos idiomas, o comentador, memorialista, o cronista. Até romancista de costumes animais, com nitidez cientifica.

As “Actas Diurnas”, artigos escritos de 1939 a 1960 nos dois jornais locais, iniciaram a crônica histórica, estilo diferente de fixador, pintor de tipos humanos. Inventou conceito brasileiro para a literatura oral. Deu foros de ciência ao folclore, que difundiu e valorizou. Inovou fornecendo caráter enciclopédico à sua pesquisa. Sua atualização e modernidade são surpreendentes. O texto enxuto, claro, parece saído de um manual de redação. Descobertas e afirmações postas em dúvida anteriormente, pela ausência de técnicas, são reconhecidas como verdades, nos dias de hoje.

Até marqueteiro se revelou. Sua frase, “O melhor do Brasil é o Brasileiro”, deu origem à campanha de autoestima, detentora de diversos prêmios populares e da área. Dizia o IBOPE que nove entre dez brasileiros se identifica com a sentença. Foi, em termos comparativos, maior e por mais tempo no ar na televisão, dando seqüência à valorização de símbolos e cores pátrios, qual sirene chamativa de significados adormecidos.

No dia 30 de julho de 1986 ele deixou a terra, viajando para outra galáxia. Mas de maneira inédita, permanece entre nós.

Criou a Universidade Popular, com aulas públicas por dois anos. Fundador e idealizador, com grupo de escritores potiguares, da Academia Norte Rio Grandense de Letras em 1936; fundador, com o gaúcho Dante Laytano, da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, ativa em São Paulo; Homem do Século, em votação popular ocorrida em 2007, promovida pela Rede Globo de Televisão, no Rio Grande do Norte. Nove vezes inspirou e protagonizou Coleção de Selos dos Correios e Telégrafos; foi cédula de cinqüenta mil cruzeiros; cartões de telefone; bilhete da Loteria Federal, esgotado em uma semana. Sonhou e concretizou a Sociedade Brasileira de Folclore, em 1941, quando a cultura popular era ignorada e até estigmatizada pelos estudiosos brasileiros.

Destacado como pensador sul-americano em religiosidade, teve painel gigante comemorativo na EXPO 98, em Lisboa, Portugal, sob a égide de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. A Europa comentou favoravelmente sua frase sábia: O Brasileiro, na sua fé particular, traz para si o conforto da mãe de Jesus, retirando-a do coletivo. Assim, passamos a usar “Valei-me minha Nossa Senhora”!

Motivo de exposições nacionais, como, por exemplo, “Um Homem Chamado Brasil”, nos salões do BID, Rio de Janeiro; escolhido para titular colégios no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte, pracinha, rua em Belo Horizonte, São Paulo e Natal, avenida, elevado em São Paulo, faculdades, creches, memorial, museu, agências bancárias, lojas de artesanato. Foi nome de Concurso Internacional em setenta e oito países, no PARLATINO, dirigido pelo Deputado Federal Nei Lopes de Souza, seu aluno na Faculdade de Direito da UFRN; Semana de Estudos pela sua obra na USP, SP; Núcleo de Estudos na UFRN, tendo a frente o Prof. Humberto Hermenegildo e equipe. Seus livros inspiraram peças teatrais brasileiras e espanholas, programas radiofônicos, séries televisivas, documentários em Portugal, Espanha, Brasil, México.

Por um sortilégio, está no meio de nós… Foi eleito “santo”, “São Cascudo – Padroeiro da Tradição”, com reza e santinho, no Simpósio Internacional dos Contadores de História, realizado no Rio de Janeiro, em agosto de 2007. Vivo e presente esteve nos quatro mil componentes das alas da Escola de Samba “Nenê de Vila Matilde”, em fevereiro de 2008, Grupo Um do carnaval paulista. No carro Abre-Alas, conferi, emocionada, o enredo alusivo ao seu trabalho ser cantado e dançado, com comentários generosos e gratificantes pelo Júri da TV Globo.

Na cidade de Olímpia, Estado de São Paulo, confesso que fui às lágrimas, na qualidade de Presidente de Honra do 44º Festival de Folclore em sua homenagem. Na oportunidade, mais de dois mil brincantes de todos os Estados Brasileiros faziam exatamente o que ele sempre desejou: vestidos com roupas típicas entoavam as melodias das suas terras. Iniciou-se em 2 de agosto de 2008 até o dia 8. Lá foi chancelado o Grande Colar Cultural Câmara Cascudo, pela Prefeitura de Olímpia, Festival Nacional do Folclore e Academia Brasileira de Arte, Cultura e História. Na capital, a Global Editora organizou exposição dos seus livros por ela editados, e a Academia Brasileira de Arte, Cultura e História – que tenho a honra de figurar no Conselho e como Sócia Comendadora – promoveu uma noite com presenças ilustres de todos os ramos do conhecimento do Estado de São Paulo. Inaugurado seu retrato, pintado pela Acadêmica Gigi, fato noticiado pela mídia com destaque, em 12 de agosto de 2008.

No dia 13, fui entrevistada na Televisão da Faculdade de Teologia Umbandista, e falei para alunos de diversas classes daquela entidade de estudos, respondendo sobre sua obra e importância na valorização da Umbanda no Brasil.

Em Novembro de 2008, Luis da Câmara Cascudo foi consagrado como um dos inspiradores do Primeiro Congresso de Umbanda do Século XXI (o do século XX ele compareceu com Mário de Andrade) realizado na Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo. Fui honrada como uma das Professoras de tão importante acontecimento.

Em 10 de dezembro de 2008 recebi a Medalha de Mérito Câmara Cascudo, instituída pela unanimidade dos Deputados e referendada pelo Presidente nos salões da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte.

Este ano, fui abençoada. A maior consagração como escritora e biógrafa. O título do meu livro, “O COLECIONADOR DE CREPÚSCULOS” (2004) narrando, com ótica filial e na qualidade de testemunha-confidente passagens vividas pelo eterno mestre, foi utilizado para titular, no Teatro SESI de São Paulo, Serviço Nacional da Indústria uma peça excepcional. O autor e Diretor Teatral Vladimir Capella reuniu vinte e quatro atores, com participação afetiva de Rolando Boldrin, que faz o Senhor Brasil, Câmara Cascudo. O autor destacou que o Brasil está contido na riqueza literária do homenageado, tributo justo à sua vida e obra.

Deixo de enumerar seus mais de cento e cinqüenta livros, plaquetes, opúsculos, separatas e crônicas, descobertos constantemente no Brasil, em Portugal, Espanha e França, para não me alongar em demasia.

Na síntese panorâmica da existência do meu pai, o coração bate forte, apontando figura feminina que ele denominava, na dedicatória dos seus livros, “animadora incomparável” ou “flor sem espinhos”. Dáhlia Freire Cascudo, de tradicional família macaibense, filha caçula do Juiz de Direito, depois Presidente do Tribunal de Justiça e Desembargador José Teotônio Freire e da fidalga Maria Leopoldina Viana, conhecida por Sinhá, virtuose no piano e apaixonada pela língua e civilização francesas. Luís a conheceu com dezesseis anos, aluna das Irmãs Dorotéias, tímida e encabulada. Criticado pela genitora, Donana Cascudo, por deixar de lado nomes famosos de apaixonadas mulheres e se interessar apenas por uma menina, respondeu ofertando à linda adolescente a boneca Elza, até hoje sob a guarda da nossa primogênita, Daliana. Foram 57 anos de casamento, harmonioso e feliz. Pergunto-me se a obra gigantesca de Luís da Câmara Cascudo, profunda e consistente, existiria em tal dimensão, sem a permanente doçura da companheira. Na plaquete comemorativa ao seu centenário, que será brevemente editada, na crônica intitulada “Planeta Saudade”, como filha observadora, mas ainda calcada na prática da Promotoria de Justiça e no exercício jornalístico, opinei. Escrevi que: “O segredo de Dáhlia foi à definição da escolha. Ela possuiu a lucidez de peneirar o real, reservar o importante, apagar o supérfluo. Fazia-se de desentendida quanto uma escapadela boêmia, valorizando a harmonia familiar, a segurança do lar, a simplicidade do cotidiano. O marido conservou ideário de liberdade, sem amarras, buscas, averiguações. Regressava para o carinho leal e aparente credulidade nos seus sonhos.”

Meu irmão, Fernando Luís, e eu, herdamos dos nossos pais a sabedoria de manter harmonia conjugal, base para a riqueza emocional que nossos filhos e netos ampliarão através dos seus descendentes. Na nossa paisagem intima, realizamos a mais autêntica imortalidade. Tal sanidade moral , de envelhecer amando, é o baú de tesouros que legamos. Que nossos herdeiros o mantenham, através dos tempos…

 

 

Charles Perrault

Origem: Wikipédia.
Charles Perrault

Retrato (detalhe) por Philippe Lallemand , 1672

 

Nacionalidade França francês
Data de nascimento 12 de janeiro de 1628
Local de nascimento Paris
Data de falecimento 16 de maio de 1703 (75 anos)
Local de falecimento Paris
Ocupação Escritor e poeta
Obra(s) de destaque Le Petit Chaperon rouge, La Belle au bois dormant, Le Maître chat ou le Chat botté,Cendrillon ou la petite pantoufle de verre, La Barbe bleue e Le Petit Poucet

 

Charles Perrault (Paris, 12 de janeiro de 1628 — Paris, 16 de maio de 1703) foi um escritor e poeta francês do século XVII, que estabeleceu bases para um novo gênero literário, oconto de fadas, além de ter sido o primeiro a dar acabamento literário a esse tipo de literatura, feito que lhe conferiu o título de “Pai da Literatura Infantil”. Suas histórias mais conhecidas são Le Petit Chaperon rouge (Chapeuzinho Vermelho), La Belle au bois dormant (A Bela Adormecida), Le Maître chat ou le Chat botté (O Gato de Botas), Cendrillon ou la petite pantoufle de verre (Cinderella), La Barbe bleue (Barba Azul) e Le Petit Poucet (O Pequeno Polegar).1 2 Contemporâneo de Jean de La Fontaine, Perrault também foi advogado e exerceu algumas atividades como superintendente do Rei Luís XIV de França. A maioria de suas histórias ainda hoje são editadas, traduzidas e distribuídas em diversos meios de comunicação, e adaptadas para várias formas de expressões, como o teatro, o cinema e a televisão, tanto em formato de animação como de ação viva.

Charles Perrault nasceu em 1628 em Paris e morreu em 1703. Quinto filho de Pierre Perrault e Paquette Le Clerc oriunda alta burguesia, completou seus estudos sozinho, por ter se desentendido com um professor.1 Dá início aos seus estudos em 1637, no colégio de Beauvais, que viria a concluir aos quinze anos, tendo demonstrado um certo talento para as línguas mortas. Seu irmão Claude Perrault tornou-se um renomado arquiteto. Em 1643 ingressa no curso de direito e, em 1651, com apenas vinte e três anos, consegue o seu diploma, tornando-se advogado.

Em 1671 foi eleito para a Academia Francesa de Letras e no dia da sua inauguração permitiu ao público presenciar a cerimónia, privilégio continuado ainda nos nossos dias. No ano seguinte, não só é nomeado chanceler da Academia, como contrai matrimónio com Marie Guichon.

Querela dos Antigos e dos Modernos

Na Academia Francesa, Charles Perrault protagonizou uma longa disputa intelectual, batizada de Querela dos Antigos e dos Modernos. Os Antigos eram escritores que acreditavam na superioridade da antiguidade grecoromanasobre toda e qualquer produção francesa. Os Modernos, contudo, defendiam que a produção literária francesa não era inferior aos clássicos do passado. Perrault liderava o grupo dos Modernos e tentou provar a superioridade da literatura de seu século com as publicações Le Siècle de Louis le Grand (1687) e Parallèle des Anciens et des Modernes (1688–1692).

Contos de fadas

Em 1695, aos 62 anos, perdeu seu posto como secretário. Idoso, resolveu registrar as histórias que ouvia de sua mãe e nos salões parisienses. O livro, publicado em 11 de janeiro de 1697, quando contava quase 70 anos, recebeu o nome de Histórias ou contos do tempo passado com moralidades, mas também era chamado de “Contos da Velha” e “Contos da Cegonha”, ficando, afinal, conhecido como “Contos da mamãe gansa”. A publicação rompeu os limites literários da época e alcançou públicos de todos os cantos do planeta, além de marcar um novo gênero da literatura, o conto de fadas. Foi, ao fazer isto, o primeiro a dar acabamento literário a esses tipos de histórias, antes apenas contadas entre as damas dos salões parisienses.

Charles Perrault, Museu Nacional de Versalhes, artista desconhecido.

Publicado em 1697 sob o título Histórias ou contos do tempo passado com moralidades, embora tenha ficado conhecido por seu subtítulo: Contos da mamãe gansa. As morais vinham em forma de poesia, que encerravam cada história.

  • “(Chapeuzinho Vermelho)”
  • “(A Bela Adormecida”)
  • “(O Pequeno Polegar)” “(le petit poucet)”
  • “(Cinderela)”
  • “(Barba Azul]” (“La Barbe-Bleue”)
  • “(O Gato de Botas)” (“Le Maître Chat ou Le Chat Botté”)
  • “(As Fadas)” (“Les Fées”)
  • “(Henrique, o Topetudo (“Riquet à la Houppe”)
  • “(Pele de Asno)” (“Peau d’Âne”)
  • “(Os Desejos Ridículos)”
  • “(Grisélidis)”

 Ao Redor da Fogueira - Standart

Conversas à fogueira terão estimulado a evolução das nossas capacidades cognitivas, sociais e culturais

É provável que contar e ouvir histórias pela noite dentro tenha contribuído para a imaginação e empatia dos primeiros humanos.

Ainda hoje, o início da noite é a altura ideal para contar histórias ou para ouvir as dos outros. Os nossos filhos reclamam-nas antes de apagar a luz e nós próprios, quando um amigo nos conta uma história à luz da lareira ou das velas, esquecemos as nossas preocupações do dia, descontraímos e sonhamos acordados.

Será que, há centenas de milhares de anos, quando os nossos longínquos antepassados conseguiram controlar o fogo, também eles sentiram essa atracção pelas conversas nocturnas à luz de uma fogueira? Claro que é impossível saber de que terão falado, que histórias terão desencantado, que mitos e lendas terão partilhado. Mas é contudo possível ter-se uma ideia do conteúdo dessas conversas com base em dados sobre populações actuais.

E a partir daí, torna-se razoável especular que o controlo do fogo não terá apenas permitido aos primeiros humanos cozinhar os seus alimentos e proteger-se dos predadores. Também terá tido um papel essencial no desenvolvimento das suas capacidades cognitivas, culturais e sociais. É precisamente essa a conclusão de um estudo publicado nesta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Há 40 anos que Polly Wiessner, antropóloga da Universidade do Utah (EUA), estuda os costumes e tradições dos Kung – um grupo de cerca de 4000 bosquímanos que vivem em diversas povoações no deserto do Calaári, entre o Nordeste da Namíbia e o Noroeste do Botswana, no Sul de África. E agora, ela comparou em grande pormenor as características das conversas diurnas e nocturnas de várias destas comunidades, fazendo assim, escreve na PNAS, uma “etnografia da noite”,  à procura daquilo que terá “ateado a fogueira” da cultura e da sociedade na noite dos tempos.

“Não é possível descobrir o passado através dos bosquímanos”, avisa porém a cientista em comunicado da sua universidade. “Mas estas pessoas vivem da caça e da recolecção, que foi também a forma de vida dos nossos antepassados durante 99% da sua evolução.” Por isso, as conversas dos bosquímanos à noite “ajudam-nos a responder à questão de como o espaço nocturno, iluminado pelas fogueiras, contribui para a vida humana”.

O certo é que, a partir do momento em que o uso do fogo se generalizou, há entre 200 mil e 100 mil anos, isso alterou os ritmos circadianos dos seres humanos. A luz permitiu ficar acordado e estendeu o dia, “criando um tempo em que as actividades sociais não interferiam com a vida produtiva e a subsistência”, escreve ainda a cientista.

O seu estudo baseia-se em dois tipos de dados. Por um lado, os apontamentos que Wiessner fizera, em 1974, relativos a 174 conversas diurnas e nocturnas em dois acampamentos Kung, com uma duração de 20 a 30 minutos cada e que envolviam entre cinco e 15 pessoas. Por outro, as gravações de conversas, transcritas para inglês, de 68 histórias contadas à luz da fogueira, que a autora presenciou ao longo de várias estadias entre 2011 e 2013 em aldeias Kung.

Os temas das conversas diurnas e nocturnas revelaram-se, de facto, tão diferentes como o dia e a noite. De dia, 34% das conversas eram queixas, críticas e mexericos; 31% sobre questões económicas; 16% anedotas; e 6% histórias e outras coisas. Mas à noite, depois de cada família ter jantado ao pé da sua própria fogueira, as pessoas reuniam-se frequentemente em redor de uma fogueira maior – e nessas reuniões alargadas, as histórias passavam a ocupar 81% do tempo.

“À noite, as pessoas descontraem, acalmam e procuram entretenimento”, explica ainda Wiessner. Contam-se histórias, mas também se fala de pessoas conhecidas mas ausentes, que não residem na mesma aldeia, bem como do mundo sobrenatural. Canta-se, dança-se e os curandeiros entram em transe para comunicar com os espíritos dos entes queridos que morreram e proteger os vivos que eles querem levar consigo.

Segundo Wiessner, os primeiros humanos terão assim construído, na sua cabeça, comunidades virtuais de seres reais e imaginários, e isso terá ampliado a sua imaginação e a sua capacidade de perceber as emoções alheias – um traço exclusivamente humano.

“A noite em redor de uma fogueira é um momento universal para formar laços, difundir informação social, para se entreter e partilhar emoções”, salienta a cientista. Os conflitos da vida quotidiana apaziguam-se.

Wiessner também pergunta, mas sem dar respostas, em que medida é que a luz eléctrica nos estará a “roubar” esse momento ao permitir-nos trabalhar dia e noite. “Agora, o trabalho estende-se pela noite dentro, em casa, em frente a um computador.” O que acontecerá às relações sociais num mundo onde “apenas tenho 15 minutos para contar uma história de adormecer aos meus filhos”?

 

oOo

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s